sábado, 14 de maio de 2016



UNIVERSIDADE FEDERAL DO ACRE
CENTRO DE EDUCAÇÃO E LETRAS - CEL
CAMPUS FLORESTA
PRÓ-REITORIA DE PÓS-GRADUAÇÃO
COORDENAÇÃO DE PÓS-GRADUAÇÃO










A GRADAÇÃO E A ANÁFORA NA CONSTRUÇÃO DOS CONTOS DE ROBÉLIA SOUZA









ENEILTON TAVEIRA DE ALMEIDA












Cruzeiro do Sul - Acre
Agosto, 2015

ENEILTON TAVEIRA DE ALMEIDA












A GRADAÇÃO E A ANÁFORA NA CONSTRUÇÃO DOS CONTOS DE ROBÉLIA SOUZA










Monografia apresentada à Coordenação do Curso de Especialização em Língua Portuguesa como requisito a obtenção do título de Especialista em Língua Portuguesa, UFAC -  Campus Floresta/CZS.



Orientadora: Prof.ª Dr.ª Maria José da Silva Morais Costa










Cruzeiro do Sul - Acre
Agosto, 2015











































A Deus.
À Prof.ª Dra. Maria José, minha orientadora.
À Therezinha Taveira de Almeida, minha mãe e apoiadora
da minha forma de ver a vida.











































Aos linguistas e aos amantes da literatura
de expressão amazônica.
A Sebastião Taveira de Almeida, fonte de admiração
(In memoriam).














                                               



























“O estilo, nem por sombra corresponde a um simples culto da forma, mas, muito longe disso, a uma particular concepção da arte e, mais em geral, a uma particular concepção da vida.”
(Leon Tolstoi)
FOLHA DE APROVAÇÃO

ALMEIDA, Eneilton Taveira de


BANCA EXAMINADORA



Prof.ª Dr.ª Maria José da Silva Morais Costa – Orientadora ........................................................................................
Instituição: UFAC


Profª. Drª. Maria das Graças da Silva

.........................................................................................

Instituição: UFAC


Prof.ª Dr.ª Deolinda Soares de Carvalho

...........................................................................................

Instituição: UFAC





RESUMO

Este trabalho de pesquisa intitulado A gradação e a anáfora na construção dos contos de Robélia Souza inclui-se nos estudos da estilística literária e no campo da expressão. Tem como objetivo compreender alguns elementos presentes nas narrativas da obra Conversa afiada, bem como, a contribuição desses elementos para a composição do estilo da escritora Robélia Souza Propõem-se ainda, refletir sobre a rede estilística escolhida pela autora como recurso de expressão das realidades amazônicas. A pesquisa tem como embasamento teórico as noções de estilo, estilística, gradação e anáfora a partir da discussão elaborada por Martins (2008) e Ribeiro (2011). Para a sua realização, foram necessárias reiteradas leituras das narrativas, durante as quais, foi feito o levantamento das ocorrências de anáfora e gradação presentes nos quatorze contos que compõem o livro Conversa afiada. Só então, passamos à análise dos três textos em que as anáforas e gradações se repetem mais vezes: “Vale a pena aguentar”, “Ecoando no vento” e “Desistir ou não – eis a questão”. Como resultado da pesquisa percebemos que a forma como a autora constrói suas narrativas chama a atenção pela riqueza estilística que expõe. Dentre os diversos recursos de estilo utilizados por ela, a gradação e a anáfora se destacam pela recorrência. Em todos os contos da autora essas figuras aparecem por mais de uma vez. Ficou evidente, portanto, a gradação e a anáfora como recursos estruturadores dos contos de Robélia Souza, principalmente nos epílogos das narrativas onde essas figuras são utilizadas em maior número, acentuando o suspense em torno do final da trama.


Palavras-chave: Estilística. Estilo. Robélia Souza. Anáfora. Gradação.





ABSTRACT
This research aims to understand some elements present in the narratives of work Conversa afiada that contribute to the writer style make up Robélia Souza and reflect on the stylistic network chosen by the author as an expression feature of amazonic realities. The research is theoretical basis the notions of style, stylistic, gradation and anaphora from the discussion prepared by Martins (2008) and Ribeiro (2011). For its realization, it took repeated readings of narrative, during which it was made a survey of the occurrences of anaphora and gradation present in fourteen short stories that make up the book Conversa afiada. Only then, we move to the analysis of the three in the anaphora and gradations are repeated over and over: "Vale a pena aguentar", "Ecoando no vento" and "Desistir ou não – eis a questão." As a result of research we realized that how the author builds his narrative calls attention to the stylistic wealth that exposes. Among the different style resources used by her, gradation and anaphora stand out for recurrence. In all the tales of the author these figures appear more than once. It was evident, therefore, the gradation and anaphora as structural features of tales of Robélia Souza, especially in the epilogues of narratives where these figures are used in greater numbers, emphasizing the suspense around the end of the plot.



Keywords: stylistic, style, Robélia Souza, anaphora, gradation











S U M Á R I O

I.     Introdução ...................................................................................................................... 10
II.  A Estilística: noções de base ......................................................................................... 15
III.   A Anáfora e a gradação em três contos de Robélia Souza .......................................... 20
IV.   Conclusão .................................................................................................................... 28
V.  Referências bibliográficas ........................................................................................... 30
VI.   Anexo I ........................................................................................................................ 32
VII.Anexo II ....................................................................................................................... 39









I. INTRODUÇÃO

A leitura do conto de expressão amazônica do século XX faz reviver uma cultura, digo, um modo peculiar de pensar, sentir e agir dentro de um contexto específico. Recriar esse contexto não é tarefa das mais fáceis. Para além de contar histórias acontecidas ou inventadas, é preciso refinar a beleza da técnica no momento de apresentar o retrato, a personagem, o objeto, o tempo e o ambiente, de criar uma imagem física ou psicológica através do domínio da linguagem. Nesse sentido, um olhar sobre o estilo estampado no produto da atividade estética parece ser um passo importante na compreensão dessas histórias.
Robélia Fernandes de Souza, uma das vozes marcantes das letras acreanas, é escritora que aceitou o desafio de retratar realidades cujo cenário é a Amazônia acreana. Sua estreia poética se deu a partir da década de 80 do século XX. Mas a veia literária já escorria por seu ser quando ainda era ginasiana do Colégio Acreano e escrevia para o jornal do referido colégio. Manauense de nascimento, ainda criança veio para o Acre, terra de seus familiares maternos, onde se graduou em letras pela Universidade Federal do Acre. Por muito tempo exerceu o magistério na área de Língua Portuguesa e Literatura e hoje ocupa a cadeira 35 da Academia Acreana de Letras[1].
Na poesia, estreou com o livro Asa de vida (1992). Depois vieram Conversa Afiada (1996) – livro de contos, e Boquinha da Noite (2003), acerca do folclore infantil acreano. Em 2004 publicou ConVerso novamente, o segundo livro de poemas da cronista-poeta. Robélia Fernandes sempre teve uma presença ativa nos jornais e revistas, além de participar de várias antologias locais e nacionais. Por meio de uma escrita simples e bem elaborada, ela traduz a relação entre a arte do texto e a da vida.
Clodomir Monteiro[2] (Monteiro apud Melo.)[3], ao se referir à escritora, ressalta que não estamos diante de uma memorialista. Segundo ele, ela não oferece e nem cobra linearidade. Pelo contrário, de seus versos emana um universo metafórico dos fenômenos da natureza, seres e sentimentos acentuados por uma voz feminina. Parece haver nela uma vontade latente de transcender o panorâmico e traduzir a problemática da vida cotidiana forjada nas pequenas cidades e no interior das colocações amazônicas. O que lhe interessa, portanto, é o homem que se elabora no dia-a-dia da região. De acordo com a professora Margarete Edul Prado de Souza Lopes[4] (Lopes apud Melo), a vontade maior da voz lírica de Robélia Souza é a de liberdade, mas, sendo mulher, ela ainda está aprendendo a transpor essa janela.
O objeto dessa pesquisa é o livro de contos Conversa Afiada. Essa obra publicada por Robélia Souza em 1996 acolhe quatorze contos que narram o cotidiano ribeirinho nas pequenas cidades e nos seringais e colocações dos arredores da cidade de Rio Branco. Ela faz isso com um estilo próprio que mistura o informal da oralidade com a busca de um refinamento da técnica escrita. O resultado desse processo é um conjunto de narrativas que envolve o leitor e funciona como uma espécie de elemento motivador para o conhecimento mais problematizador do contexto amazônico.
Minha tarefa nesse trabalho é compreender alguns elementos presentes nas narrativas que contribuem para a composição do estilo de que se serve Robélia Souza na obra Conversa Afiada, bem como refletir sobre as escolhas estilísticas feitas pela autora como recurso de expressão dessas realidades amazônicas para, em seguida, perceber os efeitos criados por esses elementos e, consequentemente, as formas como essa autora lida com a linguagem. Para alcançar esse objetivo, valho-me da estilística como instrumento teórico que me conduzirá na leitura dos contos da ficcionista manauara.
Busco auxílio, mais especificamente, da estilística da frase, que de acordo com Garcia[5] (2010: 122), é a forma de expressão peculiar a certo autor, em certa obra, de certa época. Esse olhar tem na linguagem denotada a tentativa de perceber o fato estilístico a partir de uma circunstância específica. Nestes termos, proponho a leitura dessa autora que escreve Conversa Afiada na segunda metade do século XX, no estado do Acre. Os contos foram publicados por Robélia Souza no ano de 1996 e têm como tema o cotidiano de lutas, crenças, limitações e perspectivas do povo que vive na região acreana.
Capa do livro Conversa afiada: Arquivo pessoal.
A própria capa do livro na sua primeira edição mostra o esforço da autora em traduzir essa fragmentária realidade. A ilustração de Jaqueline Mesquita – um mosaico de imagens lendárias como o boto que é também mulher, o fragmento de escrita, a escrivaninha, as aves de mau agouro, o jogo de luzes e sombras, entres outras coisas – mostra a labuta da escritora na busca da expressão via estudo dos contos e das lendas amazônicas. Meio em que se percebem motivos linguísticos que nos levam a apreender mudanças e transformações psicológicas do homem.
O fragmentarismo presente na gravura da capa se transporta para a linguagem, onde Robélia nos mostra um mosaico de recursos estilísticos cujos efeitos expressivos chamam a atenção do leitor. Isso pode ser visto, por exemplo, em contos como “O homem do retrato”; “Copo-de-leite”; “A promessa”; “Filha ingrata”; “Vale apena aguentar”; “A carta anônima”; “A mensagem”; “Conversa afiada”; “Ecoando no vento”; “Desistir ou não - eis a questão”; “Cantam os galos”; “O encontro”; “Desconfiança” e “Rasga mortalha” que se desenrolam como motor da vida, alternando marcha lenta e velocidade do ritmo narrativo, tal como o ritmo do interior da floresta.
Uma experiência de vida também fragmentária trouxe-me até aqui enquanto pesquisador em formação. Nasci no município de Cruzeiro do Sul, na Colônia São Pedro. Após uma infância típica das localidades amazônicas, precisei sair da cidade em busca de melhores condições de vida e trabalho. A ida para Manaus me inseriu no ambiente de produção próprio da Zona Franca, onde a eletrônica foi, por um período, minha área de atuação e formação. Ao retornar para o município de Cruzeiro do Sul, dei continuidade aos estudos e ingressei no curso de Letras da Universidade Federal do Acre como um daqueles acadêmicos que “brigavam com a língua”. Aliás, até hoje ainda vivo em conflito constante com seus/meus usos.
A conclusão do curso de Letras me conduziu à experiência de professor e foi esse viver que abriu as portas de entrada para o curso de Especialização em Língua Portuguesa. O convívio diário com alunos, com conteúdos e com metodologias, inevitavelmente, obrigam o professor a buscar um aprofundamento maior de seus conhecimentos. Hoje, trabalho como comerciante na varanda do mercado. Uma atividade profissional que também me coloca frente aos desafios de compreensão da língua porque vivo em contato direto com a população que busca meu comércio e as conversas são naturalmente inevitáveis. Minha trajetória fragmentária carece mais ainda de reflexão sobre a língua e suas formas de expressão. Os textos de temática amazônica sempre chamaram minha atenção pela afinidade com minha vivência na região. Lê-los é atividade das que mais habitam minha experiência leitora. Foi essa necessidade produzida por um mecânico/professor/comerciante/leitor que me fez escolher os textos de Robélia Souza como objeto de pesquisa.
Na intenção de refletir sobre esse conjunto, destacarei os efeitos causados por duas figuras estilísticas recorrentes em todos os contos da autora: anáfora e gradação. Para o estudo teórico dessas figuras, valho-me dos autores Martins (2008) com noções de estilo e estilística da frase e de Ribeiro (2011) com os conceitos de gradação e anáfora. Além desses dois autores de base, o diálogo se dará também com outros, como Câmara (1977 e 1974), que auxiliaram na compreensão dos termos. Além de outros estudiosos cujas contribuições aparecem disseminadas ao longo do texto e, consequentemente, foram de importância singular para a leitura que aqui se expõe.
A pesquisa é de natureza qualitativa (Oliveira, 2007: 37) e para realizá-la adotaram-se os seguintes passos como recurso metodológico: em primeiro lugar fez-se a descrição dos fenômenos estilísticos que aparecem no universo de quatorze contos de Robélia Souza, no que tange à anáfora e à gradação. Feita essa parte mais descritiva, a análise se situou nos três contos onde esses fenômenos mais aparecem para tecer pontos interpretativos focados nos efeitos estilísticos produzidos nessas narrativas mais especificamente. Para isso, foram considerados alguns instrumentos de análise tais como a recorrência desses fenômenos; a posição deles nos textos, a relação que se estabelece entre as gradações e as anáforas, bem como, suas respectivas formas de construção.
Para a coleta dos dados, procedi à leitura dos quatorze contos do livro Conversa afiada, leitura que se deu em tempos diferentes. Realizei a primeira leitura de modo mais superficial sem o compromisso da análise e a partir dos próximos momentos de leitura fui firmando o olhar na catalogação dos fenômenos anafóricos e de gradação presentes nos contos. Esses momentos de leitura foram importantes porque expressam modos distintos de aproximação do texto, cada um com uma recepção única. Foi assim que cheguei ao quadro de fenômenos estilísticos anexo a este trabalho e que foi importante instrumento para a escolha dos contos analisados. A partir de então me debrucei sobre os contos “Vale a pena aguentar” “Ecoando no vento” e “Desistir ou não – eis a questão” que apresentaram a maior quantidade de gradações e anáforas.
Foi esse método que me permitiu chegar às conclusões que se apresentam ao fim desse trabalho e que buscaram entender como o texto literário de Robélia Souza se aproveita da gradação e da anáfora no processo de recriação de realidades acreanas.














II. A ESTILÍSTICA: NOÇÕES DE BASE

A estilística é a área do conhecimento que se propõe estudar o conjunto de recursos expressivos da língua. Seu objeto de estudo é, portanto, o efeito expressivo, a expressão da sensibilidade pela linguagem ou, ainda, a forma como a linguagem traduz sentimentos, afetos, atitudes, fatos sensíveis aparentemente indizíveis quando se trata de uma forma de expressão mais utilitária e técnica e, portanto, predominantemente informativa. Lessa (2013) faz uma interessante revisão bibliográfica no volume Estilística do texto, material utilizado na disciplina homônima ministrada à turma de especialização em Língua Portuguesa no campus Floresta da Universidade Federal do Acre. Nele, ela tece considerações sobre o surgimento da Estilística enquanto disciplina ou área do conhecimento, fazendo, desse modo, um histórico do vocábulo e da área que ao longo dos anos se consolidou como o estudo da expressividade das formas linguísticas, para fins persuasivos e artísticos, com capacidade de emocionar e sugestionar (pag. 10).
Nesse movimento, Martins (2008), no livro Introdução à Estilística, um dos textos de base de Lessa , partiu da conceituação da estilística quando discorreu sobre o seu aparecimento, a variedade de conceitos de estilo, a estilística funcional e estrutural e a relação entre retórica e estilística. Esse foi o alicerce construído por ela para discutir de modo mais cauteloso sobre a estilística do som, a estilística da palavra, a estilística da frase e a estilística da enunciação. Fazendo essa trajetória, ela define que o primeiro passo para a análise estilística é a apreensão dos traços estilísticos presentes no texto (Martins, 2008: 23). Entendendo o estilo do autor como a sua maneira individual de expressar-se, de refletir o seu mundo interior, a sua vivência (Martins, 2008: 24). A tarefa daquilo que se chamou estilística literária, portanto, é examinar como é constituída a obra literária e considerar o prazer estético que ela provoca no leitor (Martins, 2008: 27).
Lessa (2013: 12), concordando com Martins, define então o objeto de estudo da Estilística como sendo a linguagem afetiva, pois essa ciência se preocupa com a capacidade que o homem tem de transmitir emoções e sugestionar os seus semelhantes. Ainda segundo Lessa (2013: 13).
Na linguagem literária, o estilo é muito importante, já que neste caso, os processos estilísticos se encontram a serviço da obra literária. Resulta-se daí um confronto entre a norma padrão e a expressividade artística, e desse confronto se observam vários desrespeitos da norma linguística (para os puristas) ou vários efeitos literários em detrimento da norma (para os literatos).

Nesse sentido, a escolha de contos como objeto de estudo desse projeto de pesquisa se justifica porque a literatura é entendida como elemento necessário para a melhor compreensão da língua portuguesa. Ela possibilita o uso mais competente da linguagem e de suas possibilidades, uma vez que os textos literários se colocam na maioria das vezes como um laboratório de experiências linguísticas que auxilia o falante no uso mais consciente da língua.
A linguagem utilizada pela contista Robélia Souza ao elaborar seus contos é de fácil compreensão feita como se brincasse com o signo linguístico, a ponto de descrever movimentos como se tirasse um retrato ou como se fosse uma colcha de retalhos feita aos pedaços, onde se exploram as figuras de pensamento e de construção, objetivo desse trabalho. Assim, a premissa da pesquisa não está no aspecto literário, mas em compreender os efeitos produzidos pela linguagem num dado contexto e com um dado fim.
No caso específico de Robélia Souza, busco compreender os artifícios de linguagem criados por ela no afã de traduzir as diversas situações que caracterizam a vivência amazônica. A estilística me permitirá, sobretudo, determinar o modo particular dessa escritora de exprimir literariamente a região, contexto onde ela vive. No desenvolvimento do texto, buscarei a descrição de dois fenômenos estilísticos que ocorrem nos contos de Robélia e a consequente interpretação dos mesmos para experimentar as possibilidades linguísticas criadas pela autora.
Segundo Martins (2008), a criatividade da frase reside na dupla escolha do padrão sintático e do léxico, ficando a cargo da Estilística a consideração dos tipos de frase que se podem formar e os possíveis desvios da norma que constituem traços originais e expressivos. Em Robélia Souza, as construções frasais são elaboradas numa expectativa de quem conhece a linguagem própria daqueles que vivem na floresta. O modo de arrumar as palavras mostra de maneira clara em que o manuseio dos recursos da língua evidencia a capacidade singular na hora de montar os textos e dizer, neles, a Amazônia que ela conhece. As construções frasais, portanto, são fenômenos que não passam despercebidos pelo olho do leitor atento. Os recursos estilísticos saltam aos olhos porque mostram um jeito de dizer muito com uma linguagem aparentemente simples.
O entendimento de dois desses recursos será facilitado pelo instrumento teórico disponibilizado por Martins (2008) e pelo gramático Ribeiro (2011). Em sua Gramática Aplicada da Língua Portuguesa: a construção dos sentidos, livro em que objetiva verificar todos os recursos que dispõe nossa língua, Ribeiro afirma:

Hoje, uma gramática não descreve apenas seu sistema linguístico. Nela estão presentes todos os elementos que levam à construção dos sentidos... Pois a mensagem é vista como uma atividade interativa de produção de sentidos, que se faz com base na organização dos elementos linguísticos na superfície textual e nas suas relações extralinguísticas (2011: 3).

No capítulo “Estilística da frase”, Martins (2008) faz uma exposição sobre o conceito de frase e dedica um pouco mais de tempo para algumas estruturas frasais: frase completa simples, frase complexa, períodos, frase incompleta, elipse, pleonasmo, anacoluto, partículas de realce, a ordem dos termos na frase, a estrutura melódica da frase e a concordância. Sinto falta do tratamento de fenômenos como a anáfora nesse capítulo, por isso o auxílio de Ribeiro nesse momento foi importante.
Mesmo assim, a discussão de Martins (2008) em torno da frase enquanto elemento de análise estilística foi importante para o trabalho com os dois conceitos de Ribeiro (2011). Segundo Martins (2008: 164), à estilística da frase interessa a consideração da norma – dos tipos de frase que se podem formar – e os desvios dela que constituem traços originais e expressivos. Diz ainda que – Falsas ou verdadeiras, objetivas ou subjetivas, tais frases transmitem o esforço humano para compreender, explicar, ordenar o mundo e a vida, os fenômenos e as abstrações (Martins, 2008: 169).
Os conceitos de estilo, gradação e anáfora explorados por Ribeiro (2001) me darão condições de enxergar a mensagem elaborada por Robélia Souza desse modo criativo em que os elementos linguísticos e os extralinguísticos se encontram para compreender, expressar, dizer uma localidade, a Amazônia acreana.
Para definir estilo, Ribeiro (2011) se apropria do que diz Câmara (1977: 367) em sentido amplo: é a maneira típica porque nos exprimimos linguisticamente, individualizando-nos em função da nossa linguagem.  Essa noção deixa clara a necessidade de escolha como uma das principais marcas do conceito de estilo. Ele é marcado, desse modo, pela escolha entre as possibilidades de expressão de uma dada língua. O falante, no momento de uso da língua procede a diferentes tipos de escolha em diferentes níveis da língua. Por exemplo, ele deve escolher entre as diversas formas de dizer[6], entre a forma de construir as frases (exclamativa, interrogativa, afirmativa), a recorrência dos vocábulos, os diversos semantismos, entre outras questões. É a partir desse conjunto de escolhas que a linguagem vai se modelando e produzindo efeitos variados. Elas são motivadas por contextos específicos que ditam qual a opção linguística que resultará no efeito desejado.
A partir das possibilidades estilísticas que surgem dessa noção e dos aspectos enfatizados em cada uma das escolhas, Ribeiro (2011: 367) alista as figuras de linguagem, aspectos que assume a linguagem para fim expressivo, afastando-se do valor linguístico normalmente aceito, em figuras de palavras em que a significação dos radicais sofre um desvio; figuras de sintaxe, em que a estrutura normal da frase sofre alterações; e figuras de pensamento, em que há uma discrepância entre a expressão formal e o verdadeiro propósito da enunciação.
Uma figura de sintaxe e uma figura de pensamento são as noções que utilizarei para a leitura que proponho dos contos de Robélia Souza: anáfora e gradação, respectivamente. A palavra anáfora vem do grego. É formada pela junção do prefixo ana, que significa repetição, e pelo verbo pheró que quer dizer transportar, suportar, manter. Segundo Ribeiro (2001: 372), anáfora é a repetição de vocábulo(s) no início de cada membro da frase. Essa figura é muito utilizada em textos de cunho popular e na literatura em geral. A anáfora é também utilizada como elemento coesivo nas construções com pronomes anafóricos, contudo, esse não é o caso em vista nesse trabalho.
A figura de pensamento nomeada como gradação é definida por Ribeiro (2011: 373) como enumeração que denota crescimento ou diminuição (clímax e anticlímax). Ainda que a gradação estabeleça ligação direta com a forma de construção da frase, ela não é considerada como figura de sintaxe devido a sua relação forte com o significado das palavras que compõem a sentença. Etimologicamente, a palavra vem do latim gradus que quer dizer passo, deslocamento numa série, ponto numa escala, relacionado com o verbo gradi que significa caminhar, dar um passo.
Essas duas figuras de linguagem são utilizadas como uma forma de expressar sentidos abstratos que, na grande maioria das vezes, não estão cristalizados na língua de todo dia. Na parte do trabalho que segue, registrarei a ocorrência dessas figuras nos quatorze contos do livro Conversa afiada de Robélia Souza, para, em seguida, interpretar os dados analisados de modo a apreender o efeito expressivo produzido por eles nas narrativas da autora.































III.  ANÁFORA E GRADAÇÃO EM TRÊS CONTOS DE ROBÉLIA SOUZA

Apresento, em anexo (v. p. 32 a 38), o quadro com os dados colhidos durante os diferentes momentos de leitura dos contos realizados no decorrer da pesquisa. Ela é composta de cinco colunas que organizam informações como o nome da narrativa/conto, a página do livro em que aparecem os fenômenos, o fenômeno estilístico a ser analisado (gradação e anáfora) e a ocorrência. Esses dados têm importância singular para a pesquisa porque a partir da coleta dos mesmos, a compreensão do estilo de Robélia Souza passou do olhar superficial e genérico que fala de uma linguagem rica para um olhar mais cuidadoso que considera a percepção de alguns recursos usados pela autora para tornar essa linguagem rica.
A pesquisa feita nos quatorze contos do livro Conversa afiada de Robélia Souza demonstrou que eles reúnem vinte e oito ocorrências de gradação e oitenta ocorrências de anáfora: O conto “O homem do retrato” reúne duas gradações e oito anáforas; O conto “Copo-de-leite” reúne duas gradações e três anáforas; “A promessa” reúne duas gradações e sete anáforas; “Filha ingrata” reúne duas gradações e sete anáforas; “Vale a pena aguentar” reúne duas gradações e onze anáforas; “A carta anônima” reúne quatro anáforas e nenhuma gradação; “A mensagem” reúne três gradações e quatro anáforas; “Conversa afiada” reúne uma gradação e três anáforas; “Ecoando no vento” reúne três gradações e nove anáforas; “Desistir ou não – eis a questão” reúne três gradações e sete anáforas;  “Cantam os galos” reúne quatro anáforas e nenhuma gradação; “O encontro” reúne duas gradações e cinco anáforas; “Desconfiança” reúne três gradações e seis anáforas; “Rasga-mortalha” reúne três gradações e três anáforas.
Desse levantamento decorre que três dessas narrativas apresentam um número maior desses dois fenômenos estilísticos. Na parte de análise me ocuparei dessas três narrativas na ordem que aparecem no livro, são elas: “Vale a pena aguentar”, “Ecoando no vento” e “Desistir ou não – eis a questão”.
O conto “Vale a pena aguentar” é narrado em terceira pessoa e traz a história de Isaura, mulher que vive insatisfeita com o marido e pensa na forma de se livrar da prisão que é o casamento. No entanto, pesa-lhe a covardia: Mudar, desacomodar-se, refazer a vida, crescer... É preciso ter coragem (Souza, 1996: 42). Nessa narrativa, a proeza de Robélia Souza foi o paralelismo que se constrói entre a mulher e a jandaia, ou entre as mulheres e as jandaias, já que duas figuras femininas aparecem no enredo, Isaura e Dedé, e duas aves, a jandaia de Isaura e a jandaia de Dedé. No entanto, para os limites desse trabalho, analisarei as ocorrências de gradação e anáfora na construção do enredo e, consequentemente, na definição do estilo de Robélia Souza.
Aqui temos duas gradações e onze anáforas que percorrem o texto do início ao fim. A intenção do narrador não é contar a história de uma mulher no interior de uma colocação da Amazônia. Mais que isso, o narrador se ocupa em traduzir a irresignação e a covardia, o medo e a insegurança que crescem como paredes ao redor da personagem. Para isso, o uso das gradações e das inúmeras anáforas, além do paralelismo citado anteriormente e do indireto livre, são importantes elementos.
As primeiras anáforas são construídas ainda no primeiro parágrafo do conto: esse aperreio, esse desprezo, essa ciumeira, essa vergonha de ser trocada pelas vadias, pelas quengas e tudo quanto é rabo-de-saia (Souza, 1996: 39)[7]. Nesse momento, o narrador inicia a narrativa com os pensamentos de Isaura fluindo. Ela pensa sobre a situação que vive e o efeito que o fluir do pensamento causa na narrativa é um desassossego tanto da personagem quanto do leitor diante do relacionamento com o marido. A repetição do pronome demonstrativo esseessa e da locução prepositiva pelas entre o grupo de substantivos intensifica esse desassossego ao longo do parágrafo.
Mais uma anáfora é construída na descrição das atividades diárias de Isaura: fazer isso, fazer aquilo (Souza, 1996: 39). Nessa construção, diferentemente das anteriores, o vocábulo que se repete é um verbo. A descrição das ações executadas pela personagem durante o dia numa rotina de vida inteira é intensificada pela repetição do verbo fazer no início das duas expressões. Ainda no mesmo parágrafo, o narrador utiliza dois outros fenômenos anafóricos quando os pensamentos de Isaura descrevem o marido: Ele cada vez mais distante. Cada vez menos interessado, menos presente, menos homem pra ela (Souza, 1996: 40). Aqui as anáforas produzem uma impressão de distanciamento que causa cansaço na protagonista. Cada vez é utilizada primeiramente ao lado de uma expressão de teor negativo – mais distante. Na segunda vez que é utilizada, ela se junta com o advérbio menos e intensifica a ideia dos adjetivos e da expressão que se seguem ao advérbio – interessado, presente, homem pra ela.
No parágrafo seguinte, temos a construção: ...e a Dedé? Onde andará a Dedé? (Souza, 1996: 40). Ribeiro (2011), como dito anteriormente, define anáfora como a repetição de vocábulo(s) no início de cada membro da frase. Nesse caso, o substantivo que se repete é um nome próprio que aparece no final das frases. No entanto, um fenômeno como esse não pode passar desapercebido em uma narrativa em que a anáfora aparece como um dos elementos linguísticos/estilísticos estruturadores. Essa repetição, portanto, reforça o efeito criado pelas anáforas.
O próximo parágrafo traz mais uma ocorrência de anáfora. Ao descrever Dedé, o narrador reforça sua condição de liberdade, caracterizando-a pejorativamente: Solta no mundo. Solta como uma égua no campo (Souza, 1996: 40). O adjetivo faz a ligação metafórica entre Dedé e a égua. Na linguagem da Amazônia a comparação da mulher com a égua não é signo de boa conduta. A repetição do adjetivo reforça essa ideia.
Em outro momento do texto, quando Isaura novamente é pega divagando sobre o marido e sua relação com ele, a estratégia do narrador é novamente a construção de uma anáfora – Já nem sabia se tinha um marido em casa, se um estranho, se um inimigo. Se ele morresse?? (Souza, 1996: 41). Os vocábulos se e um que, no início da frase, vêm intercalados por outras palavras, nas construções que se seguem unem-se para causar o efeito repetitivo da negatividade impressa ao marido. A última frase relativiza a situação pelo uso da condicional se seguida da ideia da morte e de dois sinais de interrogação.
Ao descrever a circunstância do casamento de Dedé, novamente a anáfora volta à cena – Dedé, café, Dedé, café, Dedé dá o pé (Souza, 1996: 42). Dessa vez o nome próprio, repetido de modo brincalhão, junta a anáfora ao trocadilho para dar pista sobre a posterior fuga de Dedé anunciada em seguida pelo marido abandonado: – Patroa, a muié fugiu. Não deixou eu encostá nela. Não fazia bóia nenhuma (Souza, 1996: 42). O ritmo narrativo acelerado com a fuga da personagem secundária é retomado com a volta dos pensamentos de Isaura que, diante da ousadia da amiga, retorna ao seu estado condicional: Isaura gostaria que fosse diferente. Que pudesse esquecer suas dúvidas, sua mágoa. Que pudesse ser feliz (Souza, 1996: 42). A repetição do condicional que ao lado do verbo no modo subjuntivo instala Isaura definitivamente na sua condição de medo e insegurança, incerteza.
Para além das anáforas analisadas até aqui, o conto “Vale a pena aguentar” apresenta dois fenômenos de gradação em dois momentos importantes do texto. Primeiro, quando se refere à espera do marido de Dedé por uma nova esposa após a viuvez – ...escoar de horas, de dias, de anos (Souza, 1996: 42). Depois, já no penúltimo parágrafo do conto, quando o narrador define o estado de medo e insegurança de Isaura – Mudar, desacomodar-se, refazer a vida, crescer (Souza, 1996: 42). O primeiro exemplo de gradação vem acoplado à anáfora da preposição de. Isso intensifica mais ainda a ideia de tempo lento, arrastado. Quanto ao segundo exemplo, percebe-se que a ação é crescente e a gradação guarda em si todas as possibilidades que a vida apresenta diante de Isaura, mas não só isso, guarda também o desconforto trazido pela mudança. Mudar, portanto, implica em desacomodar-se, implica na responsabilidade de refazer a vida, num crescimento inevitável. A forma de construção estilística utilizada pela autora do conto conseguiu dizer tudo isso com um mínimo de palavras.
A narrativa é fechada então em suas duas últimas linhas com uma anáfora que carimba a atitude de Isaura diante da possibilidade de mudança: Diz pra ela que eu sou uma covarde. Talvez me falte o sangue de índio. Sou uma covarde. Uma covarde (Souza, 1996: 43). A repetição insistente da expressão se dá em três situações diferentes. Primeiro, no final de uma frase. Depois no início, isolada por pontos finais e por último com a supressão do verbo. Essas mudanças de construção expõem linguisticamente o processo de convencimento pelo qual passa a protagonista do conto diante da situação vivenciada no interior do seringal. O movimento estilístico desses dois fenômenos ao longo do texto mostra a ausência de saída vivida por Isaura num local onde as opções inexistiam porque, todas as formas de mudança pareciam tolher a possibilidade de liberdade. Um lugar onde ser feliz sempre se colocará como uma condicional.
O conto “Ecoando no vento” é narrado em primeira pessoa e seu enredo gira em torno da angústia de uma mãe que perde os filhos dentro da mata amazônica. A narradora conta o fato desde o momento em que os meninos entraram na mata sem que a mãe percebesse até o instante em que os três tiros que anunciam o achamento das crianças são ouvidos por ela. É interessante observar que o foco do narrador não está em contar o sumiço de duas crianças dentro da mata. Diferente disso, o foco da narrativa é o sentimento de ansiedade da personagem narradora, é a angústia seguida do alívio, esse é o ponto de convergência da trama narrativa.
Para narrar esses sentimentos, Robélia Souza lança mão de diversos recursos estilísticos. Aqui eu analisarei apenas dois deles, como é proposto no objetivo desse trabalho: a gradação e a anáfora. Durante esse enredo construído em dezenove parágrafos, a autora utiliza três ocorrências de gradação e nove ocorrências de anáfora. A primeira ocorrência se dá no segundo parágrafo, quando a narradora se vê envolvida com a falta inesperada dos filhos e o sentimento de angústia é passado para a linguagem por meio da gradação que descreve o mundo esquisito e misterioso da mata: imensidão úmida que respira, geme, pia, ronca, desliza, esgueira-se e ataca (Souza, 1996: 67). As ações que personificam a mata são intensificadas de modo crescente para descrever tanto o ambiente perigoso onde estão os meninos quanto o sentimento que envolve a personagem narradora no misto de falta e culpa que a envolve.
O quinto parágrafo expõe novos fenômenos anafóricos quando a narradora conta a um dos caçadores o que aconteceu quando os meninos entraram na mata. Na ânsia de contar, a narração constrói o mais longo parágrafo do texto e aloja ali cinco anáforas e três gradações: olho no fogão de barro, olho no terreiro; E aquele silêncio, aquele vazio, aquela ausência; gritos, o grito agudo, o grito rouco, o grito louco (Souza, 1996: 68); volte, volte; nada, nada; Nem carro, nem carroça, nem burro (Souza, 1996: 69). Nessas ocorrências, a autora intensifica o sentimento da narradora em torno do sumiço. Isso acontece na inquietação do olho que vai e vem de um lugar para outro, de uma ação para outra; acontece na caracterização do silêncio que passa de vazio a ausente; na intensidade do grito que se agudiza até chegar à loucura. E a linguagem reforça o desespero na repetição das palavras agora sem o resto da frase – volte, volte... nada, nada. Na descrição da estrada deserta, a gradação decrescente – carro, carroça, burro – reforça a desertificação da estrada na anáfora nem... nem...nem.
Esse movimento estilístico, somado aos outros recursos utilizados pela autora como a aliteração e as formas assindéticas, cria e mantém o suspense do leitor até o último parágrafo do conto. A narradora, durante a trama, titubeia na sua angústia assim como a linguagem que a traduz. Desse modo, a repetição de forte caráter anafórico passa a ser mais recorrente: estreitando-se, estreitando-se; Seu Jorge. Seu Jorge mandou o socorro (Souza, 1996: 69). À medida que a angústia do sumiço invade a narradora, a linguagem se coaduna no afã de traduzir esse sentimento. Para isso, a narração lança mão de todos os recursos possíveis, dentre eles destaca-se nos exemplos a utilização simultânea da anáfora e da gradação na mesma construção linguística, bem como, a repetição insistente de expressões que se transformam em frases isoladas pela pontuação.
Os próximos parágrafos do conto ganham um ritmo narrativo mais acelerado porque tratam da ação dos caçadores em busca das crianças e dos fios de memória da narradora. Só no décimo nono e último parágrafo a autora retoma o fenômeno anafórico. Após assumir que não tem mais olhos, apenas ouvidos, a narradora se conscientiza de que a notícia do achamento dos filhos só virá pela sequência de três tiros disparados dentro da mata. Então o conto se fecha: ...três tiros como repicar de sinos festivos. Três tiros ecoando no vento (Souza, 1996: 71). A anáfora reforça a obstinação da narradora e, finalmente, alivia o leitor.
Os recursos estilísticos da anáfora e da gradação auxiliam a autora na construção do suspense na narrativa e criam um efeito no leitor que participa da mesma angústia e do mesmo alívio vivido pela personagem narradora. Nesse sentido, a relação que se estabelece entre a gradação e a anáfora se dá no sentido da intensificação dos efeitos conseguidos pelo uso das duas figuras acopladas uma na outra.
O número de elementos estilísticos que aparecem na construção do conto é muito diverso. Dentre eles, a gradação e a anáfora se evidenciam pela recorrência, como dito antes são três ocorrências de gradação e nove ocorrências de anáfora, e pela posição que assumem no texto. Elas aparecem no início, têm seu uso intensificado no meio do conto e fecham de forma estratégica a narrativa nas suas duas últimas frases. São recursos importantes para o estilo de Robélia Souza, cuja proposta parece ser problematizar as vivências acreanas, não por meio de uma visão panorâmica, mas por meio da união do escrito com o tom de conversa próprio da oralidade, o que faz seu estilo, diferente em relação aos autores que tematizaram a vida acreana antes dela.
O conto “Desistir ou não – eis a questão” é o décimo dos quatorze publicados por Robélia Souza no livro Conversa afiada. Novamente um narrador de terceira pessoa organiza os fatos na narrativa. Ele conta uma situação inusitada em que, na sede de um seringal indeterminado, os trabalhadores da seringa junto com o patrão devem decidir sobre uma festa ou um velório. A narrativa inicia dizendo que A notícia chegou em meio aos preparativos. O Oscar morreu! Desistir da festa? (Souza, 1996: 75).
Assim, de modo bem cru e imediato, com uma afirmação seguida de uma exclamação e de uma interrogação, o narrador coloca o leitor diante da decisão difícil. No entanto, as contingências vividas dentro do seringal não deixam espaço para certos melindres. E aquilo que era visto como decisão difícil é encarado de modo menos dramático. A gente do morto decide fazer a festa e depois o velório. A cultura dos povos da floresta talvez tenha pouco vínculo com o dilema do terceiro excluído (ou isto ou aquilo) herdado por nós da cultura ocidental (Pretto, 2005: 138). Há também a possibilidade de fazer isso e aquilo, fato que acontece na narrativa.
São sete anáforas e três gradações que aparecem ao longo do texto. Desta feita, a autora começa construindo as gradações quando, após o impacto inicial com a notícia da morte de Oscar, o narrador põe o leitor a par dos preparativos da festa – A essa altura, as biritas, as batidas de limão, a cachaça pura mesmo ... a sisudez do trabalho diário trocada pelas risadas rasgadas, estraladas, cascateadas... (Souza, 1996: 75). Vê-se a gradação na descrição das bebidas que vão da birita, termo que define a bebida alcóolica de modo genérico, qualquer bebida alcóolica. Passa pela batida de limão, preparada com aguardente, limão e açúcar até chegar à cachaça pura mesmo. E vê-se também a gradação na adjetivação das risadas das pretas gordas encarregadas da comilança. As risadas, por sua vez, são intensificadas passando de rasgadas a estraladas e cascateadas. Elas são, portanto, hiperbolizadas.
Ambas as gradações são construídas pelo narrador logo no início da narrativa como uma forma de convencer o leitor da inevitabilidade da festa. Uma vez que todos já estavam no ritmo de preparação festivo, nada – nem a morte de um deles – poderia servir de justificativa para o cancelamento daquela noite de arrasta pé. O ritmo narrativo é acelerado na metade do texto quando a decisão de manter a comemoração em honra a São Francisco já está tomada, o narrador enumera as atividades desenvolvidas pelo grupo de pessoas em prol da preparação da festa. As que varrem o terreiro, as que cozinham, as que arrumam o altar e enchem as lamparinas de querosene. Os que enchem os camburões d’água, os que fazem bancos debaixo da jaqueira, racham lenha, fazem mandados e os que nada fazem e ficam trançando de um lado para o outro... (Souza, 1996: 76).
A repetição anafórica da expressão as queos que intensifica o ritmo da narrativa e serve de recurso estilístico importante na demarcação de funções dentro da comunidade que vive no seringal. Esse mesmo efeito é produzido quando, após a festa, o grupo se dirige à colocação próxima para cuidar do velório – As que faziam a mortalha, vestiam o morto, tiravam as rezas. Os que serravam as tábuas, pregavam as tachas, armavam o caixão. E os que nada faziam e ficavam nos cantos, contritos, chorosos, velando o morto (Souza, 1996: 77). Novamente a expressão marca as funções do grupo que protagoniza a narrativa, reforçando a ideia de que nessas circunstâncias, as decisões e as funções não são protagonizadas por um único indivíduo, pelo contrário, a sobrevivência no interior da selva só pode se dá na coletividade.
Quando da hora de realizar o desejo do morto, nova ocorrência de anáfora – O único desejo, um enterro decente, um enterro de gente, num cemitério... Mas Oscar sempre dizia que devia de ser enterrado num caixão, num cemitério (Souza, 1996: 76). A repetição obstinada do artigo indefinido um deixa entrever na construção linguística a consciência do narrador do tipo de enterro previsto para Oscar. Por mais que seu desejo fosse legítimo, na circunstância amazônica não há possibilidade de enterro singularizado pelo artigo definido, pelo contrário, a marca é a da indefinição. Todos são um, não são o.
A narrativa tem seu desfecho, como as outras duas analisadas anteriormente, com os fenômenos estilísticos da gradação e da anáfora. As duas últimas frases do conto narram o cortejo que levará Oscar ao desejado enterro – Caminhada lenta pelo meio do varadouro fatiando a mata, depois o ramal, depois a estrada, o cemitério da vila (Souza, 1996: 77). Mais uma vez o estilo da autora acopla a gradação e a anáfora para criar o efeito desejado em torno do enterro de Oscar. A gradação mata, ramal, estrada, cemitério dá a ideia de uma abertura que seria a única forma de saída do seringueiro/agricultor[8] dos limites do seringal. Essa ideia é reforçada pela anáfora do termo depois o/depois a que dá a ideia de sequência, da ordem em que esses espaços são alcançados pelo cortejo.
Desse modo, tanto a gradação quanto a anáfora são elementos importantes na construção do conto porque auxiliam de modo significativo para criar o efeito de conformação à decisão tomada pelo grupo de personagens em torno de uma situação específica em que todos, aparentemente, saíram beneficiados de alguma maneira.









IV – CONCLUSÃO
A leitura dos contos de Robélia Souza que propus nesse trabalho de pesquisa objetivou compreender alguns elementos presentes nas narrativas que contribuem para a composição do estilo de que se serve a autora na obra Conversa Afiada, bem como refletir sobre a rede estilística escolhida pela autora como recurso de expressão das realidades amazônicas para, em seguida, assimilar os efeitos criados por esses elementos e, consequentemente, as formas como essa autora lida com a linguagem.
Dentro desse propósito e a partir dos dados colhidos no decorrer da investigação faço aqui algumas considerações que finalizam este trabalho, mas não a discussão em torno do estilo da autora. As leituras feitas e as informações colhidas fortaleceram em mim a ideia que já tinha a respeito do texto literário. Ele assume o status de metamorfose ambulante[9], pois a cada leitura, inevitavelmente, ocorrerá nova atualização de significados. Mais ainda, assume uma importância singular dentro dos estudos estilísticos, porque, como afirmei anteriormente, serve de laboratório para a linguagem que também se atualiza à medida que autores/usuários da língua experienciam com o signo linguístico numa perspectiva artística.
Desse modo, a pesquisa evidenciou pelo menos três considerações importantes a respeito do estilo de Robélia Souza. Primeiro, a forma como a autora constrói suas narrativas chama a atenção pela riqueza estilística que expõe. Dentre os diversos recursos de estilo utilizados por ela, a gradação e a anáfora se destacam pela recorrência. Em todos os contos da autora essas figuras aparecem por mais de uma vez.
Segundo, essa recorrência se acentua nos epílogos, momento em que ela faz uso desses recursos como elementos estruturadores do desfecho de suas histórias. Nos três contos analisados a autora fecha a trama com ocorrências precisas de anáforas e/ou gradações. Em dois casos, ela fecha com anáforas e gradações, momento em que as duas figuras são acopladas umas às outras e utilizadas de modo simultâneo para conseguir o efeito na criação de uma expectativa junto ao leitor. É o que ocorre no conto “Desistir ou não – eis a questão” – Caminhada lenta pelo meio do varadouro fatiando a mata, depois o ramal, depois a estrada, o cemitério da vila (Souza, 1996: 77). Ocorre também no conto “Ecoando no vento” – ...três tiros como repicar de sinos festivos. Três tiros ecoando no vento (Souza, 1996: 71). E ainda no conto “Vale a pena aguentar” - Diz pra ela que eu sou uma covarde. Talvez me falte o sangue de índio. Sou uma covarde. Uma covarde (Souza, 1996: 43).
Logo, além de estarem semeadas desde o início das narrativas, os dois fenômenos estilísticos estudados aqui se concentram nos epílogos das tramas e isso se evidencia como um traço marcante do estilo da autora que, por meio desses recursos estilísticos, abre a narrativa para a compreensão do leitor.
Em terceiro lugar, se percebe também na construção narrativa de Robélia Souza que a relação estabelecida entre as figuras contribuem para a expressão desejada pela autora. Quero dizer com isso que as anáforas e as gradações se relacionam nas narrativas de modo intenso, inclusive fugindo algumas vezes daquilo que está cristalizado como seu significado. Desse modo, percebemos nos textos que as anáforas, por exemplo, se misturam com outros tipos de repetição que aparecem no início, no meio e até no final da frase. Um desvio da autora que implica em nova experiência de linguagem, cujo efeito resulta na intensidade das emoções objetivadas pelas narrativas.
Com essas considerações em vista, posso considerar que essa pesquisa foi de grande proveito para minha trajetória pessoal e, creio eu, que terá reflexos ainda mais expressivos quando, frente a meus alunos, num futuro próximo estiver lidando com o fenômeno estilístico na função de professor. Minha expectativa é que essa pesquisa me dê condições de trabalhar de modo mais consciente e tranquilo os desafios que o ensino de língua portuguesa impõe a todo indivíduo que se propuser a enveredar por ele.
A pesquisa fica também, como mais uma possibilidade de estudo para outros pesquisadores que vierem investigar os aspectos estilísticos nas narrativas de expressão amazônica, um campo riquíssimo em temas e objetos que aguardam o olhar questionador da comunidade científica que se debruça sobre a questão linguística na Amazônia.






V – REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BAKHTIN, M. Questões de literatura e estética: a teoria do romance. Campinas: Hucitec, 1988.
BRANDÃO. R. O. As figuras de linguagem. São Paulo: Ática, 1989.
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CUNHA, C. C. L. Nova Gramática do Português Contemporâneo. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1985.
CÂMARA Jr., J. M. Contribuição à Estilística Portuguesa. 3 ed.. Rio de Janeiro : Ao Livro Técnico, 1977.
___. Dicionário de filologia e gramática. 6 ed. Rio de Janeiro, J.Ozon, 1974.
FIORIN, J. L. Figuras de retórica. São Paulo: Contexto, 2014.
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MARTINS, N. S. Introdução à estilística: a expressividade na Língua Portuguesa. 4 ed. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2008.
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MELO, I. Robélia Fernandes de Souza. Disponível em: http://almaacreana.blogspot.com.  br/search
MONTEIRO, J. L. A Estilística. São Paulo : Ática, 1991.
OLIVEIRA, M. M. Como fazer pesquisa qualitativa. Petrópolis: Vozes, 2007.
ORLANDI, E. P. O que é linguística, 6 ed. Brasiliense, 1993.
POSSENTI, S. Discurso, estilo e subjetividade. São Paulo : Martins Fontes, 1993.
PRETTO, N. Culturas e educações: em busca de aproximações. In: Cotidiano: diálogos sobre diálogos. GARCIA, R. L., ZACCUR, E., GIAMBIAGI, I. (Orgs), DP&A. RJ.
RIBEIRO, M. P. Gramática aplicada da língua portuguesa. 20 ed. Rio de Janeiro: Metáfora, 2011.
SOUZA, R. F. Conversa afiada: contos de ficção. Rio Branco: Bobgraf/Preview,1996.
TODOROV, T. Teorias do símbolo. Trad. Roberto Leal Ferreira. São Paulo: Editora Unesp, 2014.
















VI – ANEXO 1 – Quadro dos fenômenos estilísticos (gradações e anáforas)


CONTO
PÁGINA
DO
LIVRO

FENÔMENO
ESTILÍSTICO

OCORRÊNCIA
01
O homem do retrato
14
Anáfora
Duas velhinhas sentadas na sala. Duas velhinhas brancas, encaracoladas.
02
15
Anáfora
... ter piano, ter professor.
03
15
Anáfora
... retratos dos parentes, dos afilhados, de uma viagem a Belém. Retrato do avô, de ...
04
16
Gradação
... uma ligação, um fio, uma antena (p.16).
05
16
Anáfora
... uma ligação, um fio, uma antena...
06

16
Anáfora
Quer lágrima, não tem. Quer um sorriso, não tem.
07
16
Anáfora
Nem amor, nem ódio...
08
16
Anáfora
... a palavra tão sonhada, a palavra acalentada...
09
17
Anáfora
... um vocábulo sem semântica, sem encanto, sem emoção, sem mensagem, ...
10
17
Gradação
Oca, órfã, inútil.
11
Copo-de-leite
21
Gradação
O silêncio de espera, de angústia, de medo.
12
21
Anáfora
... de espera, de angústia, de medo.
13
22
Anáfora
... sem entender, sem buscar entender, sem querer entender.
14
22
Gradação
... sem entender, sem buscar entender, sem querer entender.
15
22
Anáfora
- Graças a Deus! Olha ele está tornando!
- Graças a Deus! Tá me conhecendo,
16
A promessa
27 e 28
Gradação
... castigo? penitência? merecimento?
17
28
Anáfora
Luto, luto. Luto na alma.
18
28
Anáfora
... sem brincadeira, sem cantorias, sem passeios, sem fita no cabelo e sem brinco na orelha.
19
28
Anáfora
... um livro de missa, um véu de renda e um vestido.
20

28
Anáfora
... de assunto, de ponto de vista, de controvérsias.
21
29
Anáfora
... ainda nos dias de festa tinha que participar de luto, luto pesado.
22
29
Anáfora
Vovó, quero agua. Quero agua. Vovó falta muito pra terminar o luto? Vovó, no natal ...
23
Filha ingrata
33 e 34
Anáfora
-Nina, Nina!
-Nina, cuida menina!
-Ni-na!
Nina levanta.
24
33
Anáfora
... seus segredos, seus desejos, suas fantasias.
25
34
Anáfora
- Não vou. Não vou. Hoje não vou.
26
34
Anáfora
Não. Naquela manhã não ia comprar pão.
Não porque a padaria fosse longe, porque fosse cedo, ...
27
34
Anáfora
E na padaria, seu José. Em meio às pilhas de lenha, cesta de pão, seu José
28
35
Anáfora
- meninas crescidas, meninas bonitas-...
29
36
Gradação
... filha ingrata, filha rebelde, filha inútil.
30
36
Anáfora
... filha ingrata, filha rebelde, filha inútil.
31

36
Gradação
José grande e forte.
32
Vale a pena aguentar
42
Gradação
... escoar de horas, de dias, de anos.
33
39
Anáfora
... esse aperreio, esse desprezo, essa ciumeira, essa vergonha...
34
39
Anáfora
...essa vergonha de ser trocada pelas vadias, pelas quengas.
35
39
Anáfora
... fazer isso, fazer aquilo
36
40
Anáfora
Cada vez menos interessado, menos presente, menos homem pra ela.
37
40
Anáfora
E a dedé? Onde andará a Dedé?
38
40
Anáfora
... solta no mundo. Solta como uma égua no campo.
39
41
Anáfora
... se tinha um marido em casa, se um estranho, se um inimigo, se ele morresse.
40
42
Anáfora
Dedé, café, Dedé, café, Dedé dá no pé.
41
42
Anáfora
Não deixou encostar nela. Não fazia boia nenhuma.
42
42
Anáfora
Que pudesse esquecer suas dúvidas, suas mágoas. Que pudesse ser feliz.
43
42
Anáfora
Sou uma covarde. Uma covarde.
44

42
Gradação
Mudar, desacomodar, refazer a vida, crescer.
45
A carta anômima
48
Anáfora
... pelas amigas, pelas vizinhas
46
48
Anáfora
Por que? Por que bebia?
47
48 e 49
Anáfora
- Dona Alzira, a senhora ...
- Dona Alzira, hoje a sujeita...
Dona Alzira sabia...
48
50
Anáfora
Admirava-lhe a preocupação sincera com a sua saúde. Admirava-lhe a bondade.
49
A mensagem
56
Gradação
Tem seus filhos, netos, ...
50
57
Anáfora
... mais recente, mais modesto.
51
56
Gradação
Com esses papeis eu fazia flores, arranjos para os vasos.
52
56
Gradação
O espelho da penteadeira, encaronchado, cego e inútil ...
53
57
Anáforas
As fitas, as flores, as cores,
54
57
Anáfora
Cortes para os netos, para as noras,
55
58
Anáfora
A alegria da avó renascendo. A alegria de participar – a alegria de ser útil.
56
58
Gradação
Um, dois, três...
57
Conversa afiada
62
Anáfora
Venha, venha,
58
61
Anáfora
O povo dizia que eu tinha parte com a caipora. O povo dizia.
59
62
Anáfora
Anda, anda,
60
63
Gradação
Procurar, rastejar, enfrentar o bicho.
61
Ecoando no vento
67
Gradação
Imensidão que geme, ronca, pia e geme...
62
68
Anáfora
Olho no fogão de barro, olho no terreiro,
63
68
Anáfora
E aquele silêncio, aquele vazio, aquela ausência.
64
68
Anáfora
O grito agudo, o grito rouco, o grito louco.
65
68
Gradação
O grito agudo, o grito rouco, o grito louco.
66
69
Anáfora
- volte, volte que a senhora
67
69
Anáfora
Nada, nada.
68
69
Anáfora
Nem carro, nem carroça, nem burro.
69
69
Gradação
Nem carro, nem carroça, nem burro.
70
69
Anáfora
Estreitando-se, estreitando-se até sumir na folhagem.
71
69
Anáfora
Seu Jorge. Seu Jorge mandou socorro.
72
71
Anáfora
Três tiros como repicar dos sinos festivos. Três tiros ecoando no vento.
73
Desistir ou não – eis a questão
75
Anáfora
As biritas, as batidas de limão, a cachaça pura mesmo, ...
74
75
Gradação teor alcoólico 
As biritas, as batidas de limão, a cachaça pura mesmo, ...
75
75
Gradação
Risadas rasgada, estraladas, cascateadas
76
76
Anáfora
As que varrem o terreiro, as que cozinham, as que enchem as lamparinas de querosene.
77
76
Anáfora 
Os que fazem bancos de baixo da jaqueira, racham lenha, fazem mandato e os que nada fazem
78
76
Anáfora
Um enterro descente, um enterro de gente.
79
76
Anáfora
Num caixão, num cemitério.
80
77
Anáfora
Bis, bis, bis.
81
77
Anáfora
Luz no caminho, luz nas mentes turvas.
82
77
Gradação
Fatindo a mata, depois o ramal, depois a estrada,
83
Cantam os galos
81
Anáfora
Duas forças enfrentando-se. Duas forças rolando no chão,
84
82 e 83
Anáfora
Cantam os galos meia-noite.
Cantam os galos da meia noite.
Cantam os galos da madrugada.
85
82
Anáfora
Anos e anos ele dando as ordens. Anos e anos metida ...
86

83
Anáforas
Sem muitas falas, sem muitos códigos.
87
O encontro
88
Gradação
Nos olhos que buscam, procuram, perscrutam.
88
88
Anáfora
Ninguém conhecido. Ninguém. Ninguém me conhece.
89
89
Anáfora
Ela e suas preocupações. Ela e suas teias.
90
89
Gradação
De estar com os olhos, o coração, o corpo todo ...
91
89
Anáfora
... o coração, o corpo todo
92
89
Anáfora
... do homem que sempre pareceu ser, do homem que ultrapassa  as barreiras do limite.
93
89
Anáfora
No abraço que abraça seu remoso, seu dilema.
94
Desconfiança
93
Gradação
De uma boniteza amorenada, mel e canel,
95
93
Anáfora
Do ciúme e do  tamanho do seu amor.
96
94
Anáfora
Tão carinhosa, tão fogosa ....
97
94
Anáfora
Zulmira cheia de encanto, Zulmira cheia de modas, de manhas, Zulmira rédea solta
98
94
Gradação
Missa, novena,
99
94
Anáfora
Zé Rufino na sola, no sopro, no visgo
100
95
Gradação
Zulmira correta, certa, na linha.
101

95
Anáfora
Raiva de odiar sem provas. Raiva do querer gostar, mas do que, do querer não gostar.
102
95
Anáfora
Um menino! um menino bonito e forte!
103
Rasga-mortalha
100
Anáfora
Olhos no chão, no chap chap da sandália no choto do passo no chão da trilha.
104
100
Anáfora
Num canto agourento, num riso, num riso
105
100
Gradação
Cortando, rasgando, raspando
106
100
Gradação
As folhas, os galhos, as árvores.
107
100
Anáfora
Amava a mulher. Amava o filho.
108
101
Gradação
... as mãos, os braços, o corpo todo.













VII – ANEXO 2 – Contos de Robélia Fernandes de Souza
1. VALE A PENA AGUENTAR

ECOANDO NO VENTO
























DESISTIR OU NÃO – EIS A QUESTÃO




[1] Isaac Melo dá importantes detalhes da vida e da obra da autora no seu blog Alma Acreana, veículo que tem contribuído de modo significativo para a popularização da cultura de expressão acreana como um todo.
[2] Clodomir Monteiro - Escritor e professor da Universidade Federal do Acre fez parte de vários movimentos poéticos de vanguarda, em especial da “Instauração Praxis". Trabalhou em revistas, jornais e antologias no Brasil e no exterior. Publicou, entre outros, Derroteiro de Rotinas, A Sinuca da Olaria e Costura Geral Sob Medida. Formado em Teologia, Filosofia, Letras e Direito, com pós-graduações em Antropologia e Cultura Brasileira também doutorou-se em Antropologia e foi presidente da Academia Acreana de Letras.
[3] Essa citação, bem como a próxima, foi extraída de texto eletrônico e está disponível no link: http://almaacreana.blogspot.com.  br/search
[4] Margarete Edul Prado de Souza Lopes é doutora em Literatura Brasileira pelo Programa de Pós-Graduação em Letras e Linguística da Universidade Federal da Bahia. Atualmente é professora da Universidade Federal do Acre e pesquisadora da literatura de expressão acreana.
[5] Othon Moacir Garcia foi um filólogo, linguista, ensaista e crítico literário brasileiro. Foi eleito membro da Academia Brasileira de Filologia (cadeira 21) e da Sociedade Brasileira de Filologia.
[6] Mikhail Bakhthin, ao refletir sobre os gêneros do discurso, defini-os como as diversas formas de dizer (1988).
[7] No decorrer da análise, os vocábulos repetidos que caracterizam anáforas e aqueles que caracterizam gradação virão destacados com negrito. O grifo, no entanto, é meu.
[8] A narrativa é ambientada após o segundo ciclo da borracha, momento em que o seringalista já permitia que o cortador de seringa pudesse trabalhar também na plantação e em outras atividades que não fosse a exploração da seringa.
[9] Expressão utilizada por Raul Seixas, músico brasileiro, para dar nome a uma de suas mais conhecidas canções.