UNIVERSIDADE FEDERAL DO ACRE
CENTRO DE EDUCAÇÃO E LETRAS - CEL
CAMPUS FLORESTA
PRÓ-REITORIA DE PÓS-GRADUAÇÃO
COORDENAÇÃO DE PÓS-GRADUAÇÃO
A GRADAÇÃO E A ANÁFORA NA
CONSTRUÇÃO DOS CONTOS DE ROBÉLIA SOUZA
ENEILTON TAVEIRA DE ALMEIDA
Cruzeiro do Sul
- Acre
Agosto, 2015
ENEILTON TAVEIRA DE ALMEIDA
A
GRADAÇÃO E A ANÁFORA NA CONSTRUÇÃO DOS CONTOS DE ROBÉLIA SOUZA
Monografia
apresentada à Coordenação do Curso de Especialização em Língua Portuguesa como
requisito a obtenção do título de Especialista em Língua Portuguesa, UFAC
- Campus
Floresta/CZS.
Orientadora:
Prof.ª Dr.ª Maria José da Silva Morais Costa
Cruzeiro do Sul - Acre
Agosto, 2015
A Deus.
À Prof.ª Dra. Maria José, minha
orientadora.
À Therezinha Taveira de Almeida,
minha mãe e apoiadora
da minha forma de ver a vida.
Aos linguistas e aos amantes da
literatura
de expressão amazônica.
A Sebastião Taveira de Almeida,
fonte de admiração
(In memoriam).
“O estilo, nem por sombra corresponde a um simples
culto da forma, mas, muito longe disso, a uma particular concepção da arte e,
mais em geral, a uma particular concepção da vida.”
(Leon Tolstoi)
FOLHA
DE APROVAÇÃO
ALMEIDA,
Eneilton Taveira de
BANCA
EXAMINADORA
Prof.ª Dr.ª Maria José da Silva
Morais Costa – Orientadora
........................................................................................
Instituição: UFAC
Profª. Drª. Maria das Graças da Silva
.........................................................................................
Instituição: UFAC
Prof.ª Dr.ª Deolinda Soares de Carvalho
...........................................................................................
Instituição: UFAC
RESUMO
Este
trabalho de pesquisa intitulado A
gradação e a anáfora na construção dos contos de Robélia Souza inclui-se nos estudos da estilística
literária e no campo da expressão. Tem como objetivo compreender alguns
elementos presentes nas narrativas da obra Conversa
afiada, bem como, a contribuição desses elementos para a composição do
estilo da escritora Robélia Souza Propõem-se ainda, refletir sobre a rede
estilística escolhida pela autora como recurso de expressão das realidades
amazônicas. A pesquisa tem como embasamento teórico as noções de estilo,
estilística, gradação e anáfora a partir da discussão elaborada por Martins
(2008) e Ribeiro (2011). Para a sua realização, foram necessárias reiteradas
leituras das narrativas, durante as quais, foi feito o levantamento das
ocorrências de anáfora e gradação presentes nos quatorze contos que compõem o
livro Conversa afiada. Só então,
passamos à análise dos três textos em que as anáforas e gradações se repetem
mais vezes: “Vale a pena aguentar”, “Ecoando no vento” e “Desistir ou não – eis
a questão”. Como resultado da pesquisa percebemos que a forma como a autora
constrói suas narrativas chama a atenção pela riqueza estilística que expõe.
Dentre os diversos recursos de estilo utilizados por ela, a gradação e a
anáfora se destacam pela recorrência. Em todos os contos da autora essas
figuras aparecem por mais de uma vez. Ficou evidente, portanto, a gradação e a
anáfora como recursos estruturadores dos contos de Robélia Souza,
principalmente nos epílogos das narrativas onde essas figuras são utilizadas em
maior número, acentuando o suspense em torno do final da trama.
Palavras-chave:
Estilística. Estilo. Robélia Souza. Anáfora. Gradação.
ABSTRACT
This research aims to understand some elements present
in the narratives of work Conversa afiada
that contribute to the writer style make up Robélia Souza and reflect on
the stylistic network chosen by the author as an expression feature of amazonic
realities. The research is theoretical basis the notions of style, stylistic,
gradation and anaphora from the discussion prepared by Martins (2008) and
Ribeiro (2011). For its realization, it took repeated readings of narrative,
during which it was made a survey of the occurrences of anaphora and gradation
present in fourteen short stories that make up the book Conversa afiada. Only then, we move to the analysis of the three in
the anaphora and gradations are repeated over and over: "Vale a pena aguentar",
"Ecoando no vento" and "Desistir ou não – eis a questão."
As a result of research we realized that how the author builds his narrative
calls attention to the stylistic wealth that exposes. Among the different style
resources used by her, gradation and anaphora stand out for recurrence. In all
the tales of the author these figures appear more than once. It was evident,
therefore, the gradation and anaphora as structural features of tales of
Robélia Souza, especially in the epilogues of narratives where these figures
are used in greater numbers, emphasizing the suspense around the end of the
plot.
Keywords: stylistic, style, Robélia Souza, anaphora,
gradation
S
U M Á R I O
I. Introdução
......................................................................................................................
10
II. A
Estilística: noções de base .........................................................................................
15
III.
A Anáfora e a gradação em três contos de
Robélia Souza .......................................... 20
IV.
Conclusão
....................................................................................................................
28
V.
Referências bibliográficas ...........................................................................................
30
VI.
Anexo I
........................................................................................................................
32
VII.Anexo
II .......................................................................................................................
39
I.
INTRODUÇÃO
A leitura do conto de
expressão amazônica do século XX faz reviver uma cultura, digo, um modo
peculiar de pensar, sentir e agir dentro de um contexto específico. Recriar
esse contexto não é tarefa das mais fáceis. Para além de contar histórias
acontecidas ou inventadas, é preciso refinar a beleza da técnica no momento de
apresentar o retrato, a personagem, o objeto, o tempo e o ambiente, de criar
uma imagem física ou psicológica através do domínio da linguagem. Nesse
sentido, um olhar sobre o estilo estampado no produto da atividade estética
parece ser um passo importante na compreensão dessas histórias.
Robélia
Fernandes de Souza, uma das vozes marcantes das letras acreanas, é escritora
que aceitou o desafio de retratar realidades cujo cenário é a Amazônia acreana.
Sua estreia poética se deu a partir da década de 80 do século XX. Mas a veia
literária já escorria por seu ser quando ainda era ginasiana do Colégio Acreano
e escrevia para o jornal do referido colégio. Manauense de nascimento, ainda
criança veio para o Acre, terra de seus familiares maternos, onde se graduou em
letras pela Universidade Federal do Acre. Por muito tempo exerceu o magistério
na área de Língua Portuguesa e Literatura e hoje ocupa a cadeira 35 da Academia
Acreana de Letras[1].
Na
poesia, estreou com o livro Asa de vida
(1992). Depois vieram Conversa Afiada
(1996) – livro de contos, e Boquinha da
Noite (2003), acerca do folclore infantil acreano. Em 2004 publicou ConVerso novamente, o segundo livro de
poemas da cronista-poeta. Robélia Fernandes sempre teve uma presença ativa nos
jornais e revistas, além de participar de várias antologias locais e nacionais.
Por meio de uma escrita simples e bem elaborada, ela traduz a relação entre a
arte do texto e a da vida.
Clodomir
Monteiro[2] (Monteiro apud Melo.)[3], ao se referir à escritora, ressalta que não estamos diante de uma
memorialista. Segundo ele, ela não oferece e nem cobra linearidade. Pelo
contrário, de seus versos emana um universo metafórico dos fenômenos da
natureza, seres e sentimentos acentuados por uma voz feminina. Parece haver
nela uma vontade latente de transcender o panorâmico e traduzir a problemática
da vida cotidiana forjada nas pequenas cidades e no interior das colocações
amazônicas. O que lhe interessa, portanto, é o homem que se elabora no
dia-a-dia da região. De acordo com a professora Margarete Edul Prado de Souza
Lopes[4] (Lopes apud Melo), a vontade
maior da voz lírica de Robélia Souza é a de liberdade, mas, sendo mulher, ela
ainda está aprendendo a transpor essa janela.
O objeto dessa pesquisa
é o livro de contos Conversa Afiada.
Essa obra publicada por Robélia Souza em 1996 acolhe quatorze contos que narram
o cotidiano ribeirinho nas pequenas cidades e nos seringais e colocações dos
arredores da cidade de Rio Branco. Ela faz isso com um estilo próprio que
mistura o informal da oralidade com a busca de um refinamento da técnica
escrita. O resultado desse processo é um conjunto de narrativas que envolve o
leitor e funciona como uma espécie de elemento motivador para o conhecimento
mais problematizador do contexto amazônico.
Minha tarefa nesse
trabalho é compreender alguns elementos presentes nas narrativas que contribuem
para a composição do estilo de que se serve Robélia Souza na obra Conversa Afiada, bem como refletir sobre
as escolhas estilísticas feitas pela autora como recurso de expressão dessas
realidades amazônicas para, em seguida, perceber os efeitos criados por esses
elementos e, consequentemente, as formas como essa autora lida com a linguagem.
Para alcançar esse objetivo, valho-me da estilística como instrumento teórico
que me conduzirá na leitura dos contos da ficcionista manauara.
Busco auxílio, mais
especificamente, da estilística da frase, que de acordo com Garcia[5]
(2010: 122), é a forma de expressão peculiar a certo autor, em certa obra, de
certa época. Esse olhar tem na linguagem denotada a tentativa de perceber o
fato estilístico a partir de uma circunstância específica. Nestes termos,
proponho a leitura dessa autora que escreve Conversa
Afiada na segunda metade do século XX, no estado do Acre. Os contos foram publicados por Robélia Souza no ano de
1996 e têm como tema o cotidiano de lutas, crenças, limitações e perspectivas
do povo que vive na região acreana.
Capa do livro Conversa afiada: Arquivo pessoal.
A
própria capa do livro na sua primeira edição mostra o esforço da autora em
traduzir essa fragmentária realidade. A ilustração de Jaqueline Mesquita – um
mosaico de imagens lendárias como o boto que é também mulher, o fragmento de
escrita, a escrivaninha, as aves de mau agouro, o jogo de luzes e sombras,
entres outras coisas – mostra a labuta da escritora na busca da expressão via
estudo dos contos e das lendas amazônicas. Meio em que se percebem motivos
linguísticos que nos levam a apreender mudanças e transformações psicológicas
do homem.
O
fragmentarismo presente na gravura da capa se transporta para a linguagem, onde
Robélia nos mostra um mosaico de recursos estilísticos cujos efeitos
expressivos chamam a atenção do leitor. Isso pode ser visto, por exemplo, em
contos como “O homem do retrato”; “Copo-de-leite”; “A promessa”; “Filha ingrata”;
“Vale apena aguentar”; “A carta anônima”; “A mensagem”; “Conversa afiada”; “Ecoando
no vento”; “Desistir ou não - eis a questão”; “Cantam os galos”; “O encontro”; “Desconfiança”
e “Rasga mortalha” que se desenrolam
como motor da vida, alternando marcha lenta e velocidade do ritmo narrativo,
tal como o ritmo do interior da floresta.
Uma
experiência de vida também fragmentária trouxe-me até aqui enquanto pesquisador
em formação. Nasci no município de Cruzeiro do Sul, na Colônia São Pedro. Após
uma infância típica das localidades amazônicas, precisei sair da cidade em
busca de melhores condições de vida e trabalho. A ida para Manaus me inseriu no
ambiente de produção próprio da Zona Franca, onde a eletrônica foi, por um
período, minha área de atuação e formação. Ao retornar para o município de
Cruzeiro do Sul, dei continuidade aos estudos e ingressei no curso de Letras da
Universidade Federal do Acre como um daqueles acadêmicos que “brigavam com a
língua”. Aliás, até hoje ainda vivo em conflito constante com seus/meus usos.
A
conclusão do curso de Letras me conduziu à experiência de professor e foi esse
viver que abriu as portas de entrada para o curso de Especialização em Língua
Portuguesa. O convívio diário com alunos, com conteúdos e com metodologias, inevitavelmente,
obrigam o professor a buscar um aprofundamento maior de seus conhecimentos. Hoje,
trabalho como comerciante na varanda do mercado. Uma atividade profissional que
também me coloca frente aos desafios de compreensão da língua porque vivo em
contato direto com a população que busca meu comércio e as conversas são
naturalmente inevitáveis. Minha trajetória fragmentária carece mais ainda de
reflexão sobre a língua e suas formas de expressão. Os textos de temática
amazônica sempre chamaram minha atenção pela afinidade com minha vivência na
região. Lê-los é atividade das que mais habitam minha experiência leitora. Foi
essa necessidade produzida por um mecânico/professor/comerciante/leitor que me
fez escolher os textos de Robélia Souza como objeto de pesquisa.
Na intenção de refletir
sobre esse conjunto, destacarei os efeitos causados por duas figuras
estilísticas recorrentes em todos os contos da autora: anáfora e gradação. Para
o estudo teórico dessas figuras, valho-me dos autores Martins (2008) com noções
de estilo e estilística da frase e de Ribeiro (2011) com os conceitos de
gradação e anáfora. Além desses dois autores de base, o diálogo se dará também
com outros, como Câmara (1977 e 1974), que auxiliaram na compreensão dos
termos. Além de outros estudiosos cujas contribuições aparecem disseminadas ao
longo do texto e, consequentemente, foram de importância singular para a
leitura que aqui se expõe.
A pesquisa é de
natureza qualitativa (Oliveira, 2007: 37) e para realizá-la adotaram-se os
seguintes passos como recurso metodológico: em primeiro lugar fez-se a
descrição dos fenômenos estilísticos que aparecem no universo de quatorze
contos de Robélia Souza, no que tange à anáfora e à gradação. Feita essa parte
mais descritiva, a análise se situou nos três contos onde esses fenômenos mais
aparecem para tecer pontos interpretativos focados nos efeitos estilísticos
produzidos nessas narrativas mais especificamente. Para isso, foram
considerados alguns instrumentos de análise tais como a recorrência desses
fenômenos; a posição deles nos textos, a relação que se estabelece entre as
gradações e as anáforas, bem como, suas respectivas formas de construção.
Para a coleta dos dados,
procedi à leitura dos quatorze contos do livro Conversa afiada, leitura que se deu em tempos diferentes. Realizei
a primeira leitura de modo mais superficial sem o compromisso da análise e a
partir dos próximos momentos de leitura fui firmando o olhar na catalogação dos
fenômenos anafóricos e de gradação presentes nos contos. Esses momentos de
leitura foram importantes porque expressam modos distintos de aproximação do
texto, cada um com uma recepção única. Foi assim que cheguei ao quadro de
fenômenos estilísticos anexo a este trabalho e que foi importante instrumento
para a escolha dos contos analisados. A partir de então me debrucei sobre os
contos “Vale a pena aguentar” “Ecoando no vento” e “Desistir ou não – eis a
questão” que apresentaram a maior quantidade de gradações e anáforas.
Foi esse método que me
permitiu chegar às conclusões que se apresentam ao fim desse trabalho e que buscaram
entender como o texto literário de Robélia Souza se aproveita da gradação e da
anáfora no processo de recriação de realidades acreanas.
II.
A ESTILÍSTICA: NOÇÕES DE BASE
A estilística é a área
do conhecimento que se propõe estudar o conjunto de recursos expressivos da
língua. Seu objeto de estudo é, portanto, o efeito expressivo, a expressão da
sensibilidade pela linguagem ou, ainda, a forma como a linguagem traduz sentimentos,
afetos, atitudes, fatos sensíveis aparentemente indizíveis quando se trata de
uma forma de expressão mais utilitária e técnica e, portanto, predominantemente
informativa. Lessa (2013) faz uma interessante revisão bibliográfica no volume Estilística do texto, material utilizado
na disciplina homônima ministrada à turma de especialização em Língua
Portuguesa no campus Floresta da
Universidade Federal do Acre. Nele, ela tece considerações sobre o surgimento
da Estilística enquanto disciplina ou área do conhecimento, fazendo, desse
modo, um histórico do vocábulo e da área que ao longo dos anos se consolidou
como o estudo da expressividade das formas linguísticas, para fins persuasivos
e artísticos, com capacidade de emocionar e sugestionar (pag. 10).
Nesse movimento,
Martins (2008), no livro Introdução à
Estilística, um dos textos de base de Lessa , partiu da conceituação da
estilística quando discorreu sobre o seu aparecimento, a variedade de conceitos
de estilo, a estilística funcional e estrutural e a relação entre retórica e
estilística. Esse foi o alicerce construído por ela para discutir de modo mais
cauteloso sobre a estilística do som, a estilística da palavra, a estilística
da frase e a estilística da enunciação. Fazendo essa trajetória, ela define que
o primeiro passo para a análise estilística é a apreensão dos traços
estilísticos presentes no texto (Martins, 2008: 23). Entendendo o estilo do autor
como a sua maneira individual de expressar-se, de refletir o seu mundo
interior, a sua vivência (Martins, 2008: 24). A tarefa daquilo que se chamou
estilística literária, portanto, é examinar como é constituída a obra literária
e considerar o prazer estético que ela provoca no leitor (Martins, 2008: 27).
Lessa (2013: 12),
concordando com Martins, define então o objeto de estudo da Estilística como
sendo a linguagem afetiva, pois essa ciência se preocupa com a capacidade que o
homem tem de transmitir emoções e sugestionar os seus semelhantes. Ainda
segundo Lessa (2013: 13).
Na linguagem
literária, o estilo é muito importante, já que neste caso, os processos
estilísticos se encontram a serviço da obra literária. Resulta-se daí um
confronto entre a norma padrão e a expressividade artística, e desse confronto
se observam vários desrespeitos da norma linguística (para os puristas) ou
vários efeitos literários em detrimento da norma (para os literatos).
Nesse sentido, a
escolha de contos como objeto de estudo desse projeto de pesquisa se justifica
porque a literatura é entendida como elemento necessário para a melhor compreensão
da língua portuguesa. Ela possibilita o uso mais competente da linguagem e de
suas possibilidades, uma vez que os textos literários se colocam na maioria das
vezes como um laboratório de experiências linguísticas que auxilia o falante no
uso mais consciente da língua.
A linguagem utilizada
pela contista Robélia Souza ao elaborar seus contos é de fácil compreensão
feita como se brincasse com o signo linguístico, a ponto de descrever
movimentos como se tirasse um retrato ou como se fosse uma colcha de retalhos
feita aos pedaços, onde se exploram as figuras de pensamento e de construção,
objetivo desse trabalho. Assim, a premissa da pesquisa não está no aspecto
literário, mas em compreender os efeitos produzidos pela linguagem num dado
contexto e com um dado fim.
No caso específico de
Robélia Souza, busco compreender os artifícios de linguagem criados por ela no
afã de traduzir as diversas situações que caracterizam a vivência amazônica. A
estilística me permitirá, sobretudo, determinar o modo particular dessa
escritora de exprimir literariamente a região, contexto onde ela vive. No
desenvolvimento do texto, buscarei a descrição de dois fenômenos estilísticos
que ocorrem nos contos de Robélia e a consequente interpretação dos mesmos para
experimentar as possibilidades linguísticas criadas pela autora.
Segundo Martins (2008),
a criatividade da frase reside na dupla escolha do padrão sintático e do
léxico, ficando a cargo da Estilística a consideração dos tipos de frase que se
podem formar e os possíveis desvios da norma que constituem traços originais e
expressivos. Em Robélia Souza, as construções frasais são elaboradas numa
expectativa de quem conhece a linguagem própria daqueles que vivem na floresta.
O modo de arrumar as palavras mostra de maneira clara em que o manuseio dos
recursos da língua evidencia a capacidade singular na hora de montar os textos
e dizer, neles, a Amazônia que ela conhece. As construções frasais, portanto,
são fenômenos que não passam despercebidos pelo olho do leitor atento. Os
recursos estilísticos saltam aos olhos porque mostram um jeito de dizer muito
com uma linguagem aparentemente simples.
O entendimento de dois
desses recursos será facilitado pelo instrumento teórico disponibilizado por
Martins (2008) e pelo gramático Ribeiro (2011). Em sua Gramática Aplicada da Língua Portuguesa: a construção dos sentidos,
livro em que objetiva verificar todos os
recursos que dispõe nossa língua, Ribeiro afirma:
Hoje, uma gramática não descreve
apenas seu sistema linguístico. Nela estão presentes todos os elementos que
levam à construção dos sentidos... Pois a mensagem é vista como uma atividade
interativa de produção de sentidos, que se faz com base na organização dos
elementos linguísticos na superfície textual e nas suas relações extralinguísticas
(2011: 3).
No capítulo
“Estilística da frase”, Martins (2008) faz uma exposição sobre o conceito de
frase e dedica um pouco mais de tempo para algumas estruturas frasais: frase
completa simples, frase complexa, períodos, frase incompleta, elipse,
pleonasmo, anacoluto, partículas de realce, a ordem dos termos na frase, a
estrutura melódica da frase e a concordância. Sinto falta do tratamento de
fenômenos como a anáfora nesse capítulo, por isso o auxílio de Ribeiro nesse
momento foi importante.
Mesmo assim, a
discussão de Martins (2008) em torno da frase enquanto elemento de análise
estilística foi importante para o trabalho com os dois conceitos de Ribeiro (2011).
Segundo Martins (2008: 164), à estilística da frase interessa a consideração da
norma – dos tipos de frase que se podem formar – e os desvios dela que
constituem traços originais e expressivos. Diz ainda que – Falsas ou
verdadeiras, objetivas ou subjetivas, tais frases transmitem o esforço humano
para compreender, explicar, ordenar o mundo e a vida, os fenômenos e as
abstrações (Martins, 2008: 169).
Os conceitos de estilo,
gradação e anáfora explorados por Ribeiro (2001) me darão condições de enxergar
a mensagem elaborada por Robélia Souza desse modo criativo em que os elementos
linguísticos e os extralinguísticos se encontram para compreender, expressar,
dizer uma localidade, a Amazônia acreana.
Para definir estilo,
Ribeiro (2011) se apropria do que diz Câmara (1977: 367) em sentido amplo: é a maneira típica porque nos exprimimos
linguisticamente, individualizando-nos em função da nossa linguagem. Essa noção deixa clara a necessidade de
escolha como uma das principais marcas do conceito de estilo. Ele é marcado,
desse modo, pela escolha entre as possibilidades de expressão de uma dada
língua. O falante, no momento de uso da língua procede a diferentes tipos de
escolha em diferentes níveis da língua. Por exemplo, ele deve escolher entre as
diversas formas de dizer[6],
entre a forma de construir as frases (exclamativa, interrogativa, afirmativa),
a recorrência dos vocábulos, os diversos semantismos, entre outras questões. É a
partir desse conjunto de escolhas que a linguagem vai se modelando e produzindo
efeitos variados. Elas são motivadas por contextos específicos que ditam qual a
opção linguística que resultará no efeito desejado.
A partir das possibilidades
estilísticas que surgem dessa noção e dos aspectos enfatizados em cada uma das
escolhas, Ribeiro (2011: 367) alista as figuras de linguagem, aspectos que assume a linguagem para fim
expressivo, afastando-se do valor linguístico normalmente aceito, em
figuras de palavras em que a significação dos radicais sofre um desvio; figuras
de sintaxe, em que a estrutura normal da frase sofre alterações; e figuras de
pensamento, em que há uma discrepância entre a expressão formal e o verdadeiro
propósito da enunciação.
Uma figura de sintaxe e
uma figura de pensamento são as noções que utilizarei para a leitura que
proponho dos contos de Robélia Souza: anáfora e gradação, respectivamente. A
palavra anáfora vem do grego. É formada pela junção do prefixo ana, que significa repetição, e pelo
verbo pheró que quer dizer
transportar, suportar, manter. Segundo Ribeiro (2001: 372), anáfora é a repetição de vocábulo(s) no
início de cada membro da frase. Essa figura é muito utilizada em textos de
cunho popular e na literatura em geral. A anáfora é também utilizada como
elemento coesivo nas construções com pronomes anafóricos, contudo, esse não é o
caso em vista nesse trabalho.
A figura de pensamento
nomeada como gradação é definida por Ribeiro (2011: 373) como enumeração que denota crescimento ou
diminuição (clímax e anticlímax). Ainda que a gradação estabeleça ligação
direta com a forma de construção da frase, ela não é considerada como figura de
sintaxe devido a sua relação forte com o significado das palavras que compõem a
sentença. Etimologicamente, a palavra vem do latim gradus que quer dizer passo, deslocamento numa série, ponto numa
escala, relacionado com o verbo gradi que
significa caminhar, dar um passo.
Essas duas figuras de
linguagem são utilizadas como uma forma de expressar sentidos abstratos que, na
grande maioria das vezes, não estão cristalizados na língua de todo dia. Na
parte do trabalho que segue, registrarei a ocorrência dessas figuras nos
quatorze contos do livro Conversa afiada
de Robélia Souza, para, em seguida, interpretar os dados analisados de modo a
apreender o efeito expressivo produzido por eles nas narrativas da autora.
III.
ANÁFORA E GRADAÇÃO EM TRÊS CONTOS DE
ROBÉLIA SOUZA
Apresento, em anexo (v.
p. 32 a 38), o quadro com os dados colhidos durante os diferentes momentos de
leitura dos contos realizados no decorrer da pesquisa. Ela é composta de cinco
colunas que organizam informações como o nome da narrativa/conto, a página do livro
em que aparecem os fenômenos, o fenômeno estilístico a ser analisado (gradação
e anáfora) e a ocorrência. Esses dados têm importância singular para a pesquisa
porque a partir da coleta dos mesmos, a compreensão do estilo de Robélia Souza
passou do olhar superficial e genérico que fala de uma linguagem rica para um
olhar mais cuidadoso que considera a percepção de alguns recursos usados pela
autora para tornar essa linguagem rica.
A pesquisa feita nos
quatorze contos do livro Conversa afiada
de Robélia Souza demonstrou que eles reúnem vinte e oito ocorrências de
gradação e oitenta ocorrências de anáfora: O conto “O homem do retrato” reúne
duas gradações e oito anáforas; O conto “Copo-de-leite” reúne duas gradações e
três anáforas; “A promessa” reúne duas gradações e sete anáforas; “Filha
ingrata” reúne duas gradações e sete anáforas; “Vale a pena aguentar” reúne duas
gradações e onze anáforas; “A carta anônima” reúne quatro anáforas e nenhuma
gradação; “A mensagem” reúne três gradações e quatro anáforas; “Conversa
afiada” reúne uma gradação e três anáforas; “Ecoando no vento” reúne três
gradações e nove anáforas; “Desistir ou não – eis a questão” reúne três
gradações e sete anáforas; “Cantam os
galos” reúne quatro anáforas e nenhuma gradação; “O encontro” reúne duas
gradações e cinco anáforas; “Desconfiança” reúne três gradações e seis
anáforas; “Rasga-mortalha” reúne três gradações e três anáforas.
Desse levantamento
decorre que três dessas narrativas apresentam um número maior desses dois
fenômenos estilísticos. Na parte de análise me ocuparei dessas três narrativas
na ordem que aparecem no livro, são elas: “Vale a pena aguentar”, “Ecoando no
vento” e “Desistir ou não – eis a questão”.
O conto “Vale a pena
aguentar” é narrado em terceira pessoa e traz a história de Isaura, mulher que
vive insatisfeita com o marido e pensa na forma de se livrar da prisão que é o
casamento. No entanto, pesa-lhe a covardia: Mudar,
desacomodar-se, refazer a vida, crescer... É preciso ter coragem (Souza,
1996: 42). Nessa narrativa, a proeza de Robélia Souza foi o paralelismo que se
constrói entre a mulher e a jandaia, ou entre as mulheres e as jandaias, já que
duas figuras femininas aparecem no enredo, Isaura e Dedé, e duas aves, a
jandaia de Isaura e a jandaia de Dedé. No entanto, para os limites desse
trabalho, analisarei as ocorrências de gradação e anáfora na construção do
enredo e, consequentemente, na definição do estilo de Robélia Souza.
Aqui temos duas
gradações e onze anáforas que percorrem o texto do início ao fim. A intenção do
narrador não é contar a história de uma mulher no interior de uma colocação da
Amazônia. Mais que isso, o narrador se ocupa em traduzir a irresignação e a
covardia, o medo e a insegurança que crescem como paredes ao redor da
personagem. Para isso, o uso das gradações e das inúmeras anáforas, além do
paralelismo citado anteriormente e do indireto livre, são importantes
elementos.
As primeiras anáforas
são construídas ainda no primeiro parágrafo do conto: esse aperreio, esse desprezo, essa ciumeira, essa vergonha de ser trocada pelas
vadias, pelas quengas e tudo quanto
é rabo-de-saia (Souza, 1996: 39)[7].
Nesse momento, o narrador inicia a narrativa com os pensamentos de Isaura
fluindo. Ela pensa sobre a situação que vive e o efeito que o fluir do
pensamento causa na narrativa é um desassossego tanto da personagem quanto do
leitor diante do relacionamento com o marido. A repetição do pronome
demonstrativo esse – essa e da locução prepositiva pelas entre o grupo de substantivos
intensifica esse desassossego ao longo do parágrafo.
Mais uma anáfora é
construída na descrição das atividades diárias de Isaura: fazer isso, fazer aquilo (Souza,
1996: 39). Nessa construção, diferentemente das anteriores, o vocábulo que se
repete é um verbo. A descrição das ações executadas pela personagem durante o
dia numa rotina de vida inteira é intensificada pela repetição do verbo fazer
no início das duas expressões. Ainda no mesmo parágrafo, o narrador utiliza
dois outros fenômenos anafóricos quando os pensamentos de Isaura descrevem o
marido: Ele cada vez mais distante. Cada
vez menos interessado, menos presente, menos homem pra ela (Souza, 1996: 40). Aqui as anáforas
produzem uma impressão de distanciamento que causa cansaço na protagonista. Cada vez é utilizada primeiramente ao
lado de uma expressão de teor negativo – mais distante. Na segunda vez que é
utilizada, ela se junta com o advérbio menos
e intensifica a ideia dos adjetivos e da expressão que se seguem ao advérbio – interessado, presente, homem pra ela.
No parágrafo seguinte,
temos a construção: ...e a Dedé? Onde andará a Dedé? (Souza, 1996: 40). Ribeiro
(2011), como dito anteriormente, define anáfora como a repetição de vocábulo(s) no início de cada membro da frase. Nesse
caso, o substantivo que se repete é um nome próprio que aparece no final das
frases. No entanto, um fenômeno como esse não pode passar desapercebido em uma
narrativa em que a anáfora aparece como um dos elementos linguísticos/estilísticos
estruturadores. Essa repetição, portanto, reforça o efeito criado pelas
anáforas.
O próximo parágrafo
traz mais uma ocorrência de anáfora. Ao descrever Dedé, o narrador reforça sua
condição de liberdade, caracterizando-a pejorativamente: Solta no mundo. Solta como uma
égua no campo (Souza, 1996: 40). O adjetivo faz a ligação metafórica entre
Dedé e a égua. Na linguagem da Amazônia a comparação da mulher com a égua não é
signo de boa conduta. A repetição do adjetivo reforça essa ideia.
Em outro momento do
texto, quando Isaura novamente é pega divagando sobre o marido e sua relação
com ele, a estratégia do narrador é novamente a construção de uma anáfora – Já nem sabia se tinha um marido em
casa, se um estranho, se um inimigo. Se ele morresse?? (Souza, 1996: 41). Os vocábulos se e um
que, no início da frase, vêm intercalados por outras palavras, nas construções
que se seguem unem-se para causar o efeito repetitivo da negatividade impressa
ao marido. A última frase relativiza a situação pelo uso da condicional se seguida da ideia da morte e de dois
sinais de interrogação.
Ao descrever a circunstância
do casamento de Dedé, novamente a anáfora volta à cena – Dedé, café, Dedé, café, Dedé dá o pé (Souza, 1996: 42).
Dessa vez o nome próprio, repetido de modo brincalhão, junta a anáfora ao
trocadilho para dar pista sobre a posterior fuga de Dedé anunciada em seguida
pelo marido abandonado: – Patroa, a muié
fugiu. Não deixou eu encostá nela. Não fazia bóia nenhuma (Souza,
1996: 42). O ritmo narrativo acelerado com a fuga da personagem secundária é
retomado com a volta dos pensamentos de Isaura que, diante da ousadia da amiga,
retorna ao seu estado condicional: Isaura
gostaria que fosse diferente. Que pudesse esquecer suas dúvidas, sua mágoa. Que pudesse
ser feliz (Souza, 1996: 42). A repetição do condicional que ao lado do verbo no modo subjuntivo instala
Isaura definitivamente na sua condição de medo e insegurança, incerteza.
Para além das anáforas
analisadas até aqui, o conto “Vale a pena aguentar” apresenta dois fenômenos de
gradação em dois momentos importantes do texto. Primeiro, quando se refere à
espera do marido de Dedé por uma nova esposa após a viuvez – ...escoar de horas, de dias, de anos (Souza,
1996: 42). Depois, já no penúltimo parágrafo do conto, quando o narrador define
o estado de medo e insegurança de Isaura – Mudar,
desacomodar-se, refazer a vida, crescer (Souza, 1996: 42). O primeiro
exemplo de gradação vem acoplado à anáfora da preposição de. Isso intensifica mais ainda a ideia de tempo lento, arrastado.
Quanto ao segundo exemplo, percebe-se que a ação é crescente e a gradação
guarda em si todas as possibilidades que a vida apresenta diante de Isaura, mas
não só isso, guarda também o desconforto trazido pela mudança. Mudar, portanto,
implica em desacomodar-se, implica na responsabilidade de refazer a vida, num
crescimento inevitável. A forma de construção estilística utilizada pela autora
do conto conseguiu dizer tudo isso com um mínimo de palavras.
A narrativa é fechada
então em suas duas últimas linhas com uma anáfora que carimba a atitude de
Isaura diante da possibilidade de mudança: Diz
pra ela que eu sou uma covarde.
Talvez me falte o sangue de índio. Sou
uma covarde. Uma covarde (Souza,
1996: 43). A repetição insistente da expressão se dá em três situações
diferentes. Primeiro, no final de uma frase. Depois no início, isolada por
pontos finais e por último com a supressão do verbo. Essas mudanças de
construção expõem linguisticamente o processo de convencimento pelo qual passa
a protagonista do conto diante da situação vivenciada no interior do seringal.
O movimento estilístico desses dois fenômenos ao longo do texto mostra a
ausência de saída vivida por Isaura num local onde as opções inexistiam porque,
todas as formas de mudança pareciam tolher a possibilidade de liberdade. Um
lugar onde ser feliz sempre se colocará como uma condicional.
O conto “Ecoando no
vento” é narrado em primeira pessoa e seu enredo gira em torno da angústia de
uma mãe que perde os filhos dentro da mata amazônica. A narradora conta o fato
desde o momento em que os meninos entraram na mata sem que a mãe percebesse até
o instante em que os três tiros que anunciam o achamento das crianças são
ouvidos por ela. É interessante observar que o foco do narrador não está em
contar o sumiço de duas crianças dentro da mata. Diferente disso, o foco da
narrativa é o sentimento de ansiedade da personagem narradora, é a angústia
seguida do alívio, esse é o ponto de convergência da trama narrativa.
Para narrar esses
sentimentos, Robélia Souza lança mão de diversos recursos estilísticos. Aqui eu
analisarei apenas dois deles, como é proposto no objetivo desse trabalho: a
gradação e a anáfora. Durante esse enredo construído em dezenove parágrafos, a
autora utiliza três ocorrências de gradação e nove ocorrências de anáfora. A
primeira ocorrência se dá no segundo parágrafo, quando a narradora se vê
envolvida com a falta inesperada dos filhos e o sentimento de angústia é
passado para a linguagem por meio da gradação que descreve o mundo esquisito e misterioso da mata: imensidão úmida que respira, geme, pia, ronca, desliza, esgueira-se e ataca (Souza, 1996: 67). As ações que personificam a mata são
intensificadas de modo crescente para descrever tanto o ambiente perigoso onde
estão os meninos quanto o sentimento que envolve a personagem narradora no
misto de falta e culpa que a envolve.
O quinto parágrafo
expõe novos fenômenos anafóricos quando a narradora conta a um dos caçadores o
que aconteceu quando os meninos entraram na mata. Na ânsia de contar, a
narração constrói o mais longo parágrafo do texto e aloja ali cinco anáforas e
três gradações: olho no fogão de barro, olho no terreiro; E aquele
silêncio, aquele vazio, aquela ausência; gritos, o grito
agudo, o grito rouco, o grito louco (Souza, 1996: 68); volte, volte;
nada, nada;
Nem
carro, nem carroça, nem burro (Souza,
1996: 69). Nessas ocorrências, a autora intensifica o sentimento da narradora
em torno do sumiço. Isso acontece na inquietação do olho que vai e vem de um
lugar para outro, de uma ação para outra; acontece na caracterização do
silêncio que passa de vazio a ausente; na intensidade do grito que se agudiza
até chegar à loucura. E a linguagem reforça o desespero na repetição das
palavras agora sem o resto da frase – volte,
volte... nada, nada. Na descrição
da estrada deserta, a gradação decrescente – carro, carroça, burro – reforça a desertificação da estrada na
anáfora nem... nem...nem.
Esse movimento
estilístico, somado aos outros recursos utilizados pela autora como a
aliteração e as formas assindéticas, cria e mantém o suspense do leitor até o
último parágrafo do conto. A narradora, durante a trama, titubeia na sua
angústia assim como a linguagem que a traduz. Desse modo, a repetição de forte
caráter anafórico passa a ser mais recorrente: estreitando-se, estreitando-se;
Seu
Jorge. Seu Jorge mandou o socorro (Souza, 1996: 69). À medida que a
angústia do sumiço invade a narradora, a linguagem se coaduna no afã de
traduzir esse sentimento. Para isso, a narração lança mão de todos os recursos
possíveis, dentre eles destaca-se nos exemplos a utilização simultânea da
anáfora e da gradação na mesma construção linguística, bem como, a repetição insistente
de expressões que se transformam em frases isoladas pela pontuação.
Os próximos parágrafos
do conto ganham um ritmo narrativo mais acelerado porque tratam da ação dos
caçadores em busca das crianças e dos fios de memória da narradora. Só no décimo
nono e último parágrafo a autora retoma o fenômeno anafórico. Após assumir que
não tem mais olhos, apenas ouvidos, a narradora se conscientiza de que a
notícia do achamento dos filhos só virá pela sequência de três tiros disparados
dentro da mata. Então o conto se fecha: ...três tiros como repicar de sinos festivos. Três
tiros ecoando no vento (Souza, 1996: 71). A anáfora reforça a
obstinação da narradora e, finalmente, alivia o leitor.
Os recursos
estilísticos da anáfora e da gradação auxiliam a autora na construção do
suspense na narrativa e criam um efeito no leitor que participa da mesma
angústia e do mesmo alívio vivido pela personagem narradora. Nesse sentido, a
relação que se estabelece entre a gradação e a anáfora se dá no sentido da
intensificação dos efeitos conseguidos pelo uso das duas figuras acopladas uma
na outra.
O número de elementos
estilísticos que aparecem na construção do conto é muito diverso. Dentre eles,
a gradação e a anáfora se evidenciam pela recorrência, como dito antes são três
ocorrências de gradação e nove ocorrências de anáfora, e pela posição que
assumem no texto. Elas aparecem no início, têm seu uso intensificado no meio do
conto e fecham de forma estratégica a narrativa nas suas duas últimas frases.
São recursos importantes para o estilo de Robélia Souza, cuja proposta parece
ser problematizar as vivências acreanas, não por meio de uma visão panorâmica,
mas por meio da união do escrito com o tom de conversa próprio da oralidade, o
que faz seu estilo, diferente em relação aos autores que tematizaram a vida
acreana antes dela.
O conto “Desistir ou
não – eis a questão” é o décimo dos quatorze publicados por Robélia Souza no
livro Conversa afiada. Novamente um
narrador de terceira pessoa organiza os fatos na narrativa. Ele conta uma
situação inusitada em que, na sede de um seringal indeterminado, os
trabalhadores da seringa junto com o patrão devem decidir sobre uma festa ou um
velório. A narrativa inicia dizendo que A
notícia chegou em meio aos preparativos. O Oscar morreu! Desistir da festa?
(Souza, 1996: 75).
Assim, de modo bem cru
e imediato, com uma afirmação seguida de uma exclamação e de uma interrogação, o
narrador coloca o leitor diante da decisão difícil. No entanto, as contingências
vividas dentro do seringal não deixam espaço para certos melindres. E aquilo
que era visto como decisão difícil é encarado de modo menos dramático. A gente do morto decide fazer a festa e
depois o velório. A cultura dos povos da floresta talvez tenha pouco vínculo
com o dilema do terceiro excluído (ou isto ou aquilo) herdado por nós da
cultura ocidental (Pretto, 2005: 138). Há também a possibilidade de fazer isso
e aquilo, fato que acontece na narrativa.
São sete anáforas e
três gradações que aparecem ao longo do texto. Desta feita, a autora começa
construindo as gradações quando, após o impacto inicial com a notícia da morte
de Oscar, o narrador põe o leitor a par dos preparativos da festa – A essa altura, as biritas, as batidas de limão,
a cachaça pura mesmo ... a sisudez
do trabalho diário trocada pelas risadas rasgadas,
estraladas, cascateadas... (Souza, 1996: 75). Vê-se a gradação na descrição
das bebidas que vão da birita, termo que define a bebida alcóolica de modo
genérico, qualquer bebida alcóolica. Passa pela batida de limão, preparada com
aguardente, limão e açúcar até chegar à cachaça
pura mesmo. E vê-se também a gradação na adjetivação das risadas das pretas gordas encarregadas da comilança.
As risadas, por sua vez, são intensificadas passando de rasgadas a estraladas e cascateadas. Elas são, portanto,
hiperbolizadas.
Ambas as gradações são
construídas pelo narrador logo no início da narrativa como uma forma de
convencer o leitor da inevitabilidade da festa. Uma vez que todos já estavam no
ritmo de preparação festivo, nada – nem a morte de um deles – poderia servir de
justificativa para o cancelamento daquela noite de arrasta pé. O ritmo narrativo é acelerado na metade do texto quando
a decisão de manter a comemoração em honra a São Francisco já está tomada, o
narrador enumera as atividades desenvolvidas pelo grupo de pessoas em prol da
preparação da festa. As que varrem o terreiro, as que
cozinham, as que arrumam o altar e
enchem as lamparinas de querosene. Os
que enchem os camburões d’água, os
que fazem bancos debaixo da jaqueira, racham lenha, fazem mandados e os que nada fazem e ficam trançando de
um lado para o outro... (Souza, 1996: 76).
A repetição anafórica
da expressão as que – os que intensifica o ritmo da narrativa
e serve de recurso estilístico importante na demarcação de funções dentro da
comunidade que vive no seringal. Esse mesmo efeito é produzido quando, após a
festa, o grupo se dirige à colocação próxima para cuidar do velório – As
que faziam a mortalha, vestiam o
morto, tiravam as rezas. Os que
serravam as tábuas, pregavam as tachas, armavam o caixão. E os que nada faziam e ficavam nos
cantos, contritos, chorosos, velando o morto (Souza, 1996: 77). Novamente a
expressão marca as funções do grupo que protagoniza a narrativa, reforçando a
ideia de que nessas circunstâncias, as decisões e as funções não são
protagonizadas por um único indivíduo, pelo contrário, a sobrevivência no interior
da selva só pode se dá na coletividade.
Quando da hora de
realizar o desejo do morto, nova ocorrência de anáfora – O único desejo, um enterro
decente, um enterro de gente, num cemitério... Mas Oscar sempre dizia
que devia de ser enterrado num
caixão, num cemitério (Souza,
1996: 76). A repetição obstinada do artigo indefinido um deixa entrever na construção linguística a consciência do
narrador do tipo de enterro previsto para Oscar. Por mais que seu desejo fosse
legítimo, na circunstância amazônica não há possibilidade de enterro
singularizado pelo artigo definido, pelo contrário, a marca é a da indefinição.
Todos são um, não são o.
A narrativa tem seu
desfecho, como as outras duas analisadas anteriormente, com os fenômenos
estilísticos da gradação e da anáfora. As duas últimas frases do conto narram o
cortejo que levará Oscar ao desejado enterro – Caminhada lenta pelo meio do varadouro fatiando a mata, depois o ramal, depois a estrada, o cemitério da vila (Souza, 1996: 77). Mais uma vez o estilo da
autora acopla a gradação e a anáfora para criar o efeito desejado em torno do
enterro de Oscar. A gradação mata, ramal, estrada, cemitério dá a
ideia de uma abertura que seria a única forma de saída do
seringueiro/agricultor[8]
dos limites do seringal. Essa ideia é reforçada pela anáfora do termo depois o/depois a que dá a ideia de sequência, da ordem em que esses espaços
são alcançados pelo cortejo.
Desse modo, tanto a
gradação quanto a anáfora são elementos importantes na construção do conto
porque auxiliam de modo significativo para criar o efeito de conformação à
decisão tomada pelo grupo de personagens em torno de uma situação específica em
que todos, aparentemente, saíram beneficiados de alguma maneira.
IV
– CONCLUSÃO
A leitura dos contos de
Robélia Souza que propus nesse trabalho de pesquisa objetivou compreender
alguns elementos presentes nas narrativas que contribuem para a composição do
estilo de que se serve a autora na obra Conversa
Afiada, bem como refletir sobre a rede estilística escolhida pela autora
como recurso de expressão das realidades amazônicas para, em seguida, assimilar
os efeitos criados por esses elementos e, consequentemente, as formas como essa
autora lida com a linguagem.
Dentro desse propósito
e a partir dos dados colhidos no decorrer da investigação faço aqui algumas
considerações que finalizam este trabalho, mas não a discussão em torno do
estilo da autora. As leituras feitas e as informações colhidas fortaleceram em
mim a ideia que já tinha a respeito do texto literário. Ele assume o status de metamorfose ambulante[9],
pois a cada leitura, inevitavelmente, ocorrerá nova atualização de
significados. Mais ainda, assume uma importância singular dentro dos estudos
estilísticos, porque, como afirmei anteriormente, serve de laboratório para a
linguagem que também se atualiza à medida que autores/usuários da língua
experienciam com o signo linguístico numa perspectiva artística.
Desse modo, a pesquisa
evidenciou pelo menos três considerações importantes a respeito do estilo de
Robélia Souza. Primeiro, a forma como a autora constrói suas narrativas chama a
atenção pela riqueza estilística que expõe. Dentre os diversos recursos de
estilo utilizados por ela, a gradação e a anáfora se destacam pela recorrência.
Em todos os contos da autora essas figuras aparecem por mais de uma vez.
Segundo, essa
recorrência se acentua nos epílogos, momento em que ela faz uso desses recursos
como elementos estruturadores do desfecho de suas histórias. Nos três contos
analisados a autora fecha a trama com ocorrências precisas de anáforas e/ou
gradações. Em dois casos, ela fecha com anáforas e gradações, momento em que as
duas figuras são acopladas umas às outras e utilizadas de modo simultâneo para
conseguir o efeito na criação de uma expectativa junto ao leitor. É o que
ocorre no conto “Desistir ou não – eis a questão” – Caminhada lenta pelo meio do varadouro fatiando a mata, depois o ramal, depois a estrada, o cemitério da vila (Souza, 1996: 77). Ocorre também no conto
“Ecoando no vento” – ...três tiros como repicar de sinos festivos. Três
tiros ecoando no vento (Souza, 1996: 71). E ainda no conto “Vale a pena
aguentar” - Diz pra ela que eu sou uma covarde. Talvez me falte o
sangue de índio. Sou uma covarde. Uma covarde (Souza, 1996: 43).
Logo, além de estarem
semeadas desde o início das narrativas, os dois fenômenos estilísticos
estudados aqui se concentram nos epílogos das tramas e isso se evidencia como
um traço marcante do estilo da autora que, por meio desses recursos
estilísticos, abre a narrativa para a compreensão do leitor.
Em terceiro lugar, se
percebe também na construção narrativa de Robélia Souza que a relação estabelecida
entre as figuras contribuem para a expressão desejada pela autora. Quero dizer
com isso que as anáforas e as gradações se relacionam nas narrativas de modo
intenso, inclusive fugindo algumas vezes daquilo que está cristalizado como seu
significado. Desse modo, percebemos nos textos que as anáforas, por exemplo, se
misturam com outros tipos de repetição que aparecem no início, no meio e até no
final da frase. Um desvio da autora que implica em nova experiência de
linguagem, cujo efeito resulta na intensidade das emoções objetivadas pelas
narrativas.
Com essas considerações
em vista, posso considerar que essa pesquisa foi de grande proveito para minha
trajetória pessoal e, creio eu, que terá reflexos ainda mais expressivos
quando, frente a meus alunos, num futuro próximo estiver lidando com o fenômeno
estilístico na função de professor. Minha expectativa é que essa pesquisa me dê
condições de trabalhar de modo mais consciente e tranquilo os desafios que o ensino
de língua portuguesa impõe a todo indivíduo que se propuser a enveredar por ele.
A
pesquisa fica também, como mais uma possibilidade de estudo para outros
pesquisadores que vierem investigar os aspectos estilísticos nas narrativas de
expressão amazônica, um campo riquíssimo em temas e objetos que aguardam o
olhar questionador da comunidade científica que se debruça sobre a questão
linguística na Amazônia.
V – REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BAKHTIN,
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a teoria do romance. Campinas: Hucitec, 1988.
BRANDÃO.
R. O. As figuras de linguagem. São
Paulo: Ática, 1989.
COSTA, M. J. S. M. Trajetória de uma expressão amazônica: o
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2013.
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Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1985.
CÂMARA Jr., J. M. Contribuição à Estilística Portuguesa. 3
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___. Dicionário de filologia e gramática. 6
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N. Culturas e educações: em busca de aproximações. In: Cotidiano:
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T. Teorias do símbolo. Trad. Roberto
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VI – ANEXO 1 – Quadro dos fenômenos
estilísticos (gradações e anáforas)
|
|
CONTO
|
PÁGINA
DO
LIVRO
|
FENÔMENO
ESTILÍSTICO
|
OCORRÊNCIA
|
|
01
|
O homem do retrato
|
14
|
Anáfora
|
Duas
velhinhas sentadas na sala. Duas velhinhas brancas, encaracoladas.
|
|
02
|
15
|
Anáfora
|
...
ter piano, ter professor.
|
|
|
03
|
15
|
Anáfora
|
...
retratos dos parentes, dos afilhados, de uma viagem a Belém. Retrato do avô,
de ...
|
|
|
04
|
16
|
Gradação
|
... uma
ligação, um fio, uma antena (p.16).
|
|
|
05
|
16
|
Anáfora
|
...
uma ligação, um fio, uma antena...
|
|
|
06
|
|
16
|
Anáfora
|
Quer
lágrima, não tem. Quer um sorriso, não tem.
|
|
07
|
16
|
Anáfora
|
Nem
amor, nem ódio...
|
|
|
08
|
16
|
Anáfora
|
...
a palavra tão sonhada, a palavra acalentada...
|
|
|
09
|
17
|
Anáfora
|
...
um vocábulo sem semântica, sem encanto, sem emoção, sem mensagem, ...
|
|
|
10
|
17
|
Gradação
|
Oca,
órfã, inútil.
|
|
|
11
|
Copo-de-leite
|
21
|
Gradação
|
O
silêncio de espera, de angústia, de medo.
|
|
12
|
21
|
Anáfora
|
...
de espera, de angústia, de medo.
|
|
|
13
|
22
|
Anáfora
|
...
sem entender, sem buscar entender, sem querer entender.
|
|
|
14
|
22
|
Gradação
|
...
sem entender, sem buscar entender, sem querer entender.
|
|
|
15
|
22
|
Anáfora
|
-
Graças a Deus! Olha ele está tornando!
-
Graças a Deus! Tá me conhecendo,
|
|
|
16
|
A promessa
|
27 e 28
|
Gradação
|
...
castigo? penitência? merecimento?
|
|
17
|
28
|
Anáfora
|
Luto,
luto. Luto na alma.
|
|
|
18
|
28
|
Anáfora
|
...
sem brincadeira, sem cantorias, sem passeios, sem fita no cabelo e sem brinco
na orelha.
|
|
|
19
|
28
|
Anáfora
|
...
um livro de missa, um véu de renda e um vestido.
|
|
|
20
|
|
28
|
Anáfora
|
...
de assunto, de ponto de vista, de controvérsias.
|
|
21
|
29
|
Anáfora
|
...
ainda nos dias de festa tinha que participar de luto, luto pesado.
|
|
|
22
|
29
|
Anáfora
|
Vovó,
quero agua. Quero agua. Vovó falta muito pra terminar o luto? Vovó, no natal
...
|
|
|
23
|
Filha ingrata
|
33 e 34
|
Anáfora
|
-Nina,
Nina!
-Nina,
cuida menina!
-Ni-na!
Nina
levanta.
|
|
24
|
33
|
Anáfora
|
...
seus segredos, seus desejos, suas fantasias.
|
|
|
25
|
34
|
Anáfora
|
-
Não vou. Não vou. Hoje não vou.
|
|
|
26
|
34
|
Anáfora
|
Não.
Naquela manhã não ia comprar pão.
Não
porque a padaria fosse longe, porque fosse cedo, ...
|
|
|
27
|
34
|
Anáfora
|
E
na padaria, seu José. Em meio às pilhas de lenha, cesta de pão, seu José
|
|
|
28
|
35
|
Anáfora
|
-
meninas crescidas, meninas bonitas-...
|
|
|
29
|
36
|
Gradação
|
...
filha ingrata, filha rebelde, filha inútil.
|
|
|
30
|
36
|
Anáfora
|
...
filha ingrata, filha rebelde, filha inútil.
|
|
|
31
|
|
36
|
Gradação
|
José
grande e forte.
|
|
32
|
Vale a pena aguentar
|
42
|
Gradação
|
...
escoar de horas, de dias, de anos.
|
|
33
|
39
|
Anáfora
|
...
esse aperreio, esse desprezo, essa ciumeira, essa vergonha...
|
|
|
34
|
39
|
Anáfora
|
...essa
vergonha de ser trocada pelas vadias, pelas quengas.
|
|
|
35
|
39
|
Anáfora
|
...
fazer isso, fazer aquilo
|
|
|
36
|
40
|
Anáfora
|
Cada
vez menos interessado, menos presente, menos homem pra ela.
|
|
|
37
|
40
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Anáfora
|
E
a dedé? Onde andará a Dedé?
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38
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40
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Anáfora
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...
solta no mundo. Solta como uma égua no campo.
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39
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41
|
Anáfora
|
...
se tinha um marido em casa, se um estranho, se um inimigo, se ele morresse.
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40
|
42
|
Anáfora
|
Dedé,
café, Dedé, café, Dedé dá no pé.
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41
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42
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Anáfora
|
Não
deixou encostar nela. Não fazia boia nenhuma.
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42
|
42
|
Anáfora
|
Que
pudesse esquecer suas dúvidas, suas mágoas. Que pudesse ser feliz.
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43
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42
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Anáfora
|
Sou
uma covarde. Uma covarde.
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44
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42
|
Gradação
|
Mudar,
desacomodar, refazer a vida, crescer.
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45
|
A carta anômima
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48
|
Anáfora
|
...
pelas amigas, pelas vizinhas
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46
|
48
|
Anáfora
|
Por
que? Por que bebia?
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47
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48 e 49
|
Anáfora
|
-
Dona Alzira, a senhora ...
-
Dona Alzira, hoje a sujeita...
Dona
Alzira sabia...
|
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48
|
50
|
Anáfora
|
Admirava-lhe
a preocupação sincera com a sua saúde. Admirava-lhe a bondade.
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49
|
A mensagem
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56
|
Gradação
|
Tem
seus filhos, netos, ...
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50
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57
|
Anáfora
|
...
mais recente, mais modesto.
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51
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56
|
Gradação
|
Com
esses papeis eu fazia flores, arranjos para os vasos.
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52
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56
|
Gradação
|
O
espelho da penteadeira, encaronchado, cego e inútil ...
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53
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57
|
Anáforas
|
As
fitas, as flores, as cores,
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54
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57
|
Anáfora
|
Cortes
para os netos, para as noras,
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55
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58
|
Anáfora
|
A
alegria da avó renascendo. A alegria de participar – a alegria de ser útil.
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|
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56
|
58
|
Gradação
|
Um,
dois, três...
|
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57
|
Conversa afiada
|
62
|
Anáfora
|
Venha,
venha,
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58
|
61
|
Anáfora
|
O
povo dizia que eu tinha parte com a caipora. O povo dizia.
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59
|
62
|
Anáfora
|
Anda,
anda,
|
|
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60
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63
|
Gradação
|
Procurar,
rastejar, enfrentar o bicho.
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61
|
Ecoando no vento
|
67
|
Gradação
|
Imensidão
que geme, ronca, pia e geme...
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62
|
68
|
Anáfora
|
Olho
no fogão de barro, olho no terreiro,
|
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63
|
68
|
Anáfora
|
E
aquele silêncio, aquele vazio, aquela ausência.
|
|
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64
|
68
|
Anáfora
|
O
grito agudo, o grito rouco, o grito louco.
|
|
|
65
|
68
|
Gradação
|
O
grito agudo, o grito rouco, o grito louco.
|
|
|
66
|
69
|
Anáfora
|
-
volte, volte que a senhora
|
|
|
67
|
69
|
Anáfora
|
Nada,
nada.
|
|
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68
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69
|
Anáfora
|
Nem
carro, nem carroça, nem burro.
|
|
|
69
|
69
|
Gradação
|
Nem
carro, nem carroça, nem burro.
|
|
|
70
|
69
|
Anáfora
|
Estreitando-se,
estreitando-se até sumir na folhagem.
|
|
|
71
|
69
|
Anáfora
|
Seu
Jorge. Seu Jorge mandou socorro.
|
|
|
72
|
71
|
Anáfora
|
Três
tiros como repicar dos sinos festivos. Três tiros ecoando no vento.
|
|
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73
|
Desistir ou não – eis a questão
|
75
|
Anáfora
|
As
biritas, as batidas de limão, a cachaça pura mesmo, ...
|
|
74
|
75
|
Gradação teor alcoólico
|
As
biritas, as batidas de limão, a cachaça pura mesmo, ...
|
|
|
75
|
75
|
Gradação
|
Risadas
rasgada, estraladas, cascateadas
|
|
|
76
|
76
|
Anáfora
|
As
que varrem o terreiro, as que cozinham, as que enchem as lamparinas de
querosene.
|
|
|
77
|
76
|
Anáfora
|
Os
que fazem bancos de baixo da jaqueira, racham lenha, fazem mandato e os que
nada fazem
|
|
|
78
|
76
|
Anáfora
|
Um
enterro descente, um enterro de gente.
|
|
|
79
|
76
|
Anáfora
|
Num
caixão, num cemitério.
|
|
|
80
|
77
|
Anáfora
|
Bis,
bis, bis.
|
|
|
81
|
77
|
Anáfora
|
Luz
no caminho, luz nas mentes turvas.
|
|
|
82
|
77
|
Gradação
|
Fatindo
a mata, depois o ramal, depois a estrada,
|
|
|
83
|
Cantam os galos
|
81
|
Anáfora
|
Duas
forças enfrentando-se. Duas forças rolando no chão,
|
|
84
|
82 e 83
|
Anáfora
|
Cantam
os galos meia-noite.
Cantam
os galos da meia noite.
Cantam
os galos da madrugada.
|
|
|
85
|
82
|
Anáfora
|
Anos
e anos ele dando as ordens. Anos e anos metida ...
|
|
|
86
|
|
83
|
Anáforas
|
Sem
muitas falas, sem muitos códigos.
|
|
87
|
O encontro
|
88
|
Gradação
|
Nos
olhos que buscam, procuram, perscrutam.
|
|
88
|
88
|
Anáfora
|
Ninguém
conhecido. Ninguém. Ninguém me conhece.
|
|
|
89
|
89
|
Anáfora
|
Ela
e suas preocupações. Ela e suas teias.
|
|
|
90
|
89
|
Gradação
|
De
estar com os olhos, o coração, o corpo todo ...
|
|
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91
|
89
|
Anáfora
|
...
o coração, o corpo todo
|
|
|
92
|
89
|
Anáfora
|
...
do homem que sempre pareceu ser, do homem que ultrapassa as barreiras do limite.
|
|
|
93
|
89
|
Anáfora
|
No
abraço que abraça seu remoso, seu dilema.
|
|
|
94
|
Desconfiança
|
93
|
Gradação
|
De
uma boniteza amorenada, mel e canel,
|
|
95
|
93
|
Anáfora
|
Do
ciúme e do tamanho do seu amor.
|
|
|
96
|
94
|
Anáfora
|
Tão
carinhosa, tão fogosa ....
|
|
|
97
|
94
|
Anáfora
|
Zulmira
cheia de encanto, Zulmira cheia de modas, de manhas, Zulmira rédea solta
|
|
|
98
|
94
|
Gradação
|
Missa,
novena,
|
|
|
99
|
94
|
Anáfora
|
Zé
Rufino na sola, no sopro, no visgo
|
|
|
100
|
95
|
Gradação
|
Zulmira
correta, certa, na linha.
|
|
|
101
|
|
95
|
Anáfora
|
Raiva
de odiar sem provas. Raiva do querer gostar, mas do que, do querer não
gostar.
|
|
102
|
95
|
Anáfora
|
Um
menino! um menino bonito e forte!
|
|
|
103
|
Rasga-mortalha
|
100
|
Anáfora
|
Olhos
no chão, no chap chap da sandália no choto do passo no chão da trilha.
|
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104
|
100
|
Anáfora
|
Num
canto agourento, num riso, num riso
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|
|
105
|
100
|
Gradação
|
Cortando,
rasgando, raspando
|
|
|
106
|
100
|
Gradação
|
As
folhas, os galhos, as árvores.
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107
|
100
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Anáfora
|
Amava
a mulher. Amava o filho.
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108
|
101
|
Gradação
|
...
as mãos, os braços, o corpo todo.
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VII – ANEXO 2 – Contos de Robélia
Fernandes de Souza
1. VALE A PENA AGUENTAR
ECOANDO NO VENTO
DESISTIR OU NÃO – EIS A QUESTÃO
[1] Isaac Melo dá importantes
detalhes da vida e da obra da autora no seu blog Alma Acreana, veículo que tem
contribuído de modo significativo para a popularização da cultura de expressão
acreana como um todo.
[2] Clodomir Monteiro - Escritor e
professor da Universidade Federal do Acre fez parte de vários movimentos poéticos
de vanguarda, em especial da “Instauração Praxis". Trabalhou em revistas,
jornais e antologias no Brasil e no exterior. Publicou, entre outros, Derroteiro de Rotinas, A Sinuca da Olaria e
Costura Geral Sob Medida. Formado em Teologia, Filosofia, Letras e Direito,
com pós-graduações em Antropologia e Cultura Brasileira também doutorou-se em
Antropologia e foi presidente da Academia Acreana de Letras.
[3] Essa citação,
bem como a próxima, foi extraída de texto eletrônico e está disponível no link:
http://almaacreana.blogspot.com. br/search
[4] Margarete Edul Prado de Souza
Lopes é doutora em Literatura Brasileira pelo Programa de Pós-Graduação em
Letras e Linguística da Universidade Federal da Bahia. Atualmente é professora
da Universidade Federal do Acre e pesquisadora da literatura de expressão
acreana.
[5] Othon Moacir Garcia foi um filólogo,
linguista, ensaista e crítico literário brasileiro. Foi eleito membro da
Academia Brasileira de Filologia (cadeira 21) e da Sociedade Brasileira de
Filologia.
[6] Mikhail Bakhthin, ao refletir
sobre os gêneros do discurso, defini-os como as diversas formas de dizer
(1988).
[7] No decorrer da análise, os
vocábulos repetidos que caracterizam anáforas e aqueles que caracterizam
gradação virão destacados com negrito. O grifo, no entanto, é meu.
[8] A narrativa é ambientada após o
segundo ciclo da borracha, momento em que o seringalista já permitia que o
cortador de seringa pudesse trabalhar também na plantação e em outras
atividades que não fosse a exploração da seringa.
[9] Expressão
utilizada por Raul Seixas, músico brasileiro, para dar nome a uma de suas mais
conhecidas canções.